A esponja de Barbosa du Bocage

Em setembro destacamos a esponja de Barbosa du Bocage, uma revolução na oceanografia.

Ilustração - André Letria | Pato Lógico Edições

Em 1864, José Vicente Barbosa du Bocage, professor de zoologia da Escola Politécnica de Lisboa1, publica um artigo nos Proceedings of the zoological Society of London, onde comunica a descoberta de uma nova espécie do género Hyalonema, a que chamou Hyalonema lusitanicum. Este animal de aspeto peculiar é uma esponja.

As reações, na comunidade científica internacional, não foram consensuais e iniciou-se uma ampla discussão sobre a descrição e habitat deste animal. O género Hyalonema era, até à data, conhecido apenas ao largo do mar do Japão e os espécimes eram descritos como uma série de pólipos, fixos a uma estrutura de filamentos cristalinos, por sua vez associada a uma esponja numa das extremidades que serviria como substrato. A discussão foi intensa, com a participação de vários zoólogos de renome, tais como: Gray (British Museum, Londres), von Brandt (Academia das Ciências de São Petersburgo), Schultze e Valenciennes (Muséum d’Histoire Naturelle, Paris). Em resultado, Lovén (Naturhisoriska riksmuseet, Estocolmo) publica em 1868 um artigo nos Annals and Magazine of Natural History, onde faz referência a exemplares semelhantes aos do género Hyalonema, mas descrevendo-os como tendo os filamentos cristalinos a fixá-los diretamente ao substrato. 

A curiosidade sobre estes animais é notavelmente crescente e Barbosa du Bocage convida Perceval Wright (Trinity College, Dublin), com grande interesse nos fundos marinhos, para se deslocar a Portugal e realizar explorações nesta costa. Perceval Wright efetua então dragagens ao largo de Setúbal, a 1100m de profundidade.  O material coletado incluiu exemplares intactos da esponja e a teoria de Lóven acaba assim por ser confirmada.

O exemplar aqui exposto pertence ao género em questão e está, por questões de preservação, colocado dentro do frasco em posição invertida (tal como interpretado por Bocage na altura).

Na altura, a teoria Azóica, de Forbes,  previa a existência de vida animal apenas até aos 550m de profundidade. Assim, o grande contributo da esponja de Barbosa du Bocage para a oceanografia terá sido a demonstração de existência de vida animal a uma profundidade de 1100m, muito maior do que Forbes admitiu.  A oceanografia ganhava uma nova escala.

1 – teve como morada o edifício onde nos encontramos