Vida e obra científica de Francisco Afonso Chaves em exposição no MUHNAC

Fotografias estereoscópicas, objetos e instrumentos, muitos deles das coleções científicas do MUHNAC, contam vida e obra científica do naturalista do final do século XIX e início do século XX, na Exposição 'A Imagem Paradoxal'.

Os sons em nosso redor vão desaparecendo. A vontade é a de saltar para a imagem seguinte para saber mais. Mais de uma vida e daquelas pessoas que ali aparecem representadas no seu dia-a-dia, de lazer ou de trabalho, de investigação e de conhecimento. E de repente, à medida que vamos observando e imergindo, na nossa cabeça as imagens ganham vida como se de um filme mudo se tratasse. Os sons aparecem. Imaginamos os diálogos que ali se cruzam, o ruído do mar a bater nas rochas ou simplesmente os gritos de contentamento dos baleeiros, após capturarem um cachalote na Costa da Capela em São Miguel.

Mas este não é um cachalote qualquer. São dois e foram tema de revista no século XIX mais precisamente em 1890 no Journal de L’Anatomie et de la Physiologie Normales et Pathologiques de L’Homme et des Animaux, num artigo assinado por Francisco Afonso Chaves e G. Pouchet onde são apresentadas fotografias únicas sobre os espécimes e a sua captura, num registo que documenta e imortaliza o papel da fotografia científica na ciência oceanográfica e nas expedições levadas a cabo pelo Rei D. Carlos I.

E é para esta importante parte da vida do naturalista português que a porta se abre com a exposição ‘A Imagem Paradoxal: Francisco Afonso Chaves (1857-1926). Parte II’, que pode ser visitada no Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa (MUHNAC-ULisboa) até 28 de maio.

Esta exposição é a segunda de uma trilogia proposta pelos comissários Victor dos Reis, Presidente da Faculdade de Belas-Artes da ULisboa, e por Emília Tavares, Conservadora e curadora para a área da Fotografia e Novos Media, no Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado (MNAC), e que culminará com a terceira e última parte no Museu Carlos Machado, em Ponta Delgada, nos Açores.

Todas as três exposições centram-se na figura de Francisco Afonso Chaves (1857-1926). Militar de carreira, chegou ao posto de Coronel do Exército, mas é aqui relembrado especialmente como um dos eminentes naturalistas portugueses do final do século XIX e início do século XX.

Francisco Afonso Chaves desenvolveu ao longo da vida um eclético interesse científico, nomeadamente, nas ciências naturais, com a biologia, a geologia e a geofísica, com especial enfoque na sismologia, vulcanologia e meteorologia. Nos Açores criou inclusive o Serviço Meteorológico Internacional dos Açores que deu mais tarde origem ao Serviço Meteorológico dos Açores e à rede de observatórios do arquipélago.

Na exposição patente no Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado, os curadores procuraram «mostrar a dimensão estética da obra dele», porque, como explica Victor Reis, «ele é totalmente desconhecido e não existe sequer como uma nota de rodapé na história da fotografia portuguesa» e um dos grandes objetivos com este projeto «era colocá-lo no devido lugar, isto é, não apenas na história da ciência mas também na história da fotografia».

E na história da fotografia, Francisco Afonso Chaves deixou um vasto repositório de fotografias estereoscópicas – obtidas através de um processo descoberto em 1838, dezanove anos antes do seu nascimento, e que gera a sensação de visão tridimensional através da obtenção de uma mesma imagem a partir de dois pontos diferentes permitindo determinar a distância, a dimensão, posição e profundidade dos objetos, à semelhança daquilo que acontece com a visão humana.

No MUHNAC, são também estas fotografias estereoscópicas de Francisco Afonso Chaves que ajudam a contar a parte da sua vida dedicada à ciência, os contactos estabelecidos com outros cientistas internacionais, com eminentes figuras como o Príncipe Alberto I do Mónaco e o Rei D. Carlos I, as viagens e a participação em reuniões e congressos científicos, assim como, os instrumentos usados na produção de conhecimento.

Na exposição «é possível confrontar muitos dos conteúdos das imagens com objetos reais que sobreviveram e que fazem parte da coleção do MUHNAC». E um dos objetos de destaque é o teodolito. Victor dos Reis adianta que este é «um instrumento que Francisco Afonso Chaves usa nos levantamentos que faz em trabalho de campo e está constantemente a fotografar, ou seja, ele usa o teodolito como instrumento de trabalho na sua atividade científica e é uma das principais personagens da sua obra fotográfica». E na exposição o teodolito apresenta-se de forma imponente logo na abertura, como que a convidar o visitante a ver mais, mais além.

Mas não são apenas os objetos das coleções do MUHNAC que estabelecem a relação do naturalista com a história da instituição. Também no módulo de abertura da exposição é possível observar o livro de registo de frequência na Escola Politécnica de Lisboa, onde Franscisco Afonso Chaves ingressou 1879, numa breve passagem.

«Ele começou por se inscrever porque era obrigado a isso para se tornar oficial do exército e encontramos inclusive os registos da Escola, incluindo o pedido em forma de carta que o pai escreve a pedir a admissão do filho à escola», conta o comissário. Mas o mais importante é que «ele vai desenvolver mais tarde uma serie de relações, nalguns casos, de amizade pessoal muito forte com pessoas que trabalhavam na Escola e reunimos aqui também um conjunto de documentação que traduz isso, como as cartas trocadas com Frederico Oom», Coronel, astrónomo e terceiro Diretor do Observatório Astronómico de Lisboa.

Por tudo isto, Victor dos Reis confessa que para si «era incontornável trazer esta exposição para este Museu». Uma exposição que está dividida em três grandes núcleos: “Observar” onde são apresentados os instrumentos e infraestruturas que serviram para a observação da natureza e dos fenómenos atmosféricos; “Registar, fotografar e mapear” onde se pode perceber a importância da fotografia estereoscópica na vida científica do naturalista; e “Arquivar – Museus e Coleções” onde é visível o registo fotográfico de museus e coleções de história natural nacionais e internacionais.

A terceira parte da exposição estará patente no Museu Carlos Machado, em Ponta Delgada, a partir de 27 de março com o subtema do papel do mar na vida e obra do naturalista, que para além de ter vivido nos Açores, estava constantemente a viajar de barco. «Temos provavelmente um dos primeiros casos, senão o primeiro caso, de um levantamento fotográfico sistemático de terra a partir do mar, que é um ponto de vista curioso. A maior parte dos fotógrafos fotografou em terra aquilo que estava à sua volta e ele está constantemente a fotografar aquilo que vê a partir do mar e isso é uma característica muito importante e que vai ser enfatizada na exposição dos Açores», adianta o comissário científico.

Em Lisboa, no MUHNAC, a ‘A Imagem Paradoxal: Francisco Afonso Chaves (1857-1926). Parte II’ estará patente até 28 de maio.

Imagens

Galerias de imagens: 
Inauguração da exposição "A IMAGEM PARADOXAL: Francisco Afonso Chaves (1857-1926). Parte II"