Curador do MUHNAC descobre nova espécie de serpente em São Tomé e Príncipe

Apesar de existirem relatos da sua existência desde o século XV, altura que os colonos portugueses chegaram à ilha de São Tomé e Príncipe, a verdade é que a Cobra-preta só agora recebe a ‘categoria’ de nova espécie com o nome científico Naja peroescobari.

Luís Ceríaco, curador do MUHNAC a analisar a Naja de Floresta Africana (Naja melanoleuca) - congénere continental da Cobra-preta.

Luís Ceríaco, curador da Coleção de Anfíbios e Répteis do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, da Universidade de Lisboa (MUHNAC-ULISBOA) descreve pela primeira vez a Cobra-preta como uma nova espécie no artigo The “Cobra-preta” of São Tomé Island, Gulf of Guinea, is a new species of Naja Laurenti, 1768 (Squamata: Elapidae), publicado na edição de 26 de setembro de 2017, da revista científica Zootaxa.

Há muito tempo que a Cobra-preta é conhecida na ilha de São Tomé e Príncipe como uma espécie invasora que foi introduzida pelos colonos portugueses para controlo de pragas de ratos, mas também reconhecida pela população por ser altamente venenosa. No entanto, apesar desta presença histórica e recorrentemente descrita, a Cobra-preta foi até agora confundida com a sua congénere continental – a Naja de Floresta Africana (Naja melanoleuca).

Luís Ceríaco explica que «a Cobra-Preta (Naja peroescobari) é uma serpente de grandes dimensões (mais de dois metros) de coloração maioritariamente preta à exceção das faces laterais da cabeça e do seu “colar” branco que se estende, de forma descontínua, até à 22ª ou 23ª escama ventral».

Já a «sua congénere continental, a Naja de Floresta Africana (Naja melanoleuca), é um pouco mais pequena e apresenta uma coloração negra menos marcada, com algumas marcas brancas na zona dorsal da cabeça e um colar branco descontínuo até cerca da 50ª - 60ª escama ventral. Para além da coloração, a duas espécies diferem também na forma como as escamas sublinguais contactam».

Para o curador do MUHNAC e investigador na Universidade de Villanova (Pensylvania, EUA), a dificuldade de coletar exemplares desta nova espécie foi uma das razões que impossibilitou um melhor estudo pelos naturalistas e ‘alimentou’ esta confusão entre as duas espécies ao longo do tempo. Assim, para chegar à conclusão agora apresentada, Luís Ceríaco explica que utilizou dados moleculares e históricos sobre a nova espécie.

«O que descobrimos, após a análise de dezenas de espécimes das populações insulares e continentais, é que existia um padrão morfológico e de coloração que indubitavelmente permitia a distinção das duas populações. Combinando este padrão com dados moleculares que nos mostraram que a Cobra-preta apresentava a mesma divergência molecular que aquela presente entre espécies diferentes do género Naja, podemos justificar a elevação da espécie de São Tomé a espécie».

Por outro lado, «os dados históricos, nomeadamente aqueles dos primeiros navegadores Portugueses que davam conta da presença da cobra na ilha por volta de 1500, ou seja, muito antes de uma colonização efetiva e do advento da agricultura colonial na ilha, permitiram excluir o cenário de introdução», afirma.

Para esta identificação foram fundamentais as espécimes presentes nas coleções do MUHNAC e do Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT). «O MUHNAC tinha apenas um espécime da Cobra-Preta (uma cabeça cortada, sem corpo)» e «um individuo adulto completo que depositei nas coleções do MUHNAC e que se tornou o espécime tipo da espécie», o qual foi coletado durante uma expedição do investigador a São Tomé em 2016. Por outro lado, «as coleções do IICT, recentemente integradas no MUHNAC, tinham mais espécimes que foram usados na comparação».

Para além destas coleções, o investigador estudou também materiais depositados do Museum of Comparative Zoology de Harvard, da Academy of Natural Sciencies de Filadelfia, do American Museum of Natural History em Nova Iorque, do Museum for Vertebrate Zoology em Berkeley, do Museu de História Natural de Berlim, do Museu de Zoologia da Universidade de Hamburgo, do Museu de Zoologia da Universidade de Munique e do Museu Cívico de Historia Natural de Génova.

Sobre esta nova descoberta, Luís Ceríaco confessa que é «impossível esconder um certo orgulho em “trazer ao mundo” científico uma nova espécie e poder ter a oportunidade de ser o primeiro a reconhecer e nomear o resultado de milhões de anos de evolução. Por outro lado, é um sentimento de dever – como cientistas temos a obrigação de catalogar a diversidade de espécies do planeta o mais depressa possível. Estamos numa corrida contra a extinção e só o reconhecimento de que uma espécie é única nos permite desbloquear mecanismos para a sua conservação».

E neste sentido, desde 2013, o investigador tem tido entre mãos uma missão hercúlea – a de estudar e rever a taxonomia e padrões biogeográficos das espécies de vertebrados terrestres das ilhas de São Tomé e Príncipe a convite das autoridades do país, com o objetivo de «conhecer a fundo a diversidade real da fauna de vertebrados terrestres de São Tomé e Príncipe, revendo e estabilizando a sua taxonomia, para que depois se possam tomar medidas de conservação efetivas e eficazes», explica.

Em resultado já fez a descrição do musaranho-fingui (Crocidura fingui), a lagartixa-Adamastor (Trachylepis adamastor), as lagartixas de São Tomé (Trachylepis thomensis) e do Príncipe (Trachylepis principensis) e está envolvido na descrição de uma nova lagartixa, uma nova serpente e várias revisões de outros grupos de répteis.

Mas Luís Ceríaco afirma que esta nova descoberta, do ponto de vista do curador do MUHNAC, coloca ainda outra questão. «A descoberta e estudo da fauna de São Tomé e Príncipe (bem como de outras regiões da antiga África Portuguesa) começou nesta casa e durante décadas foi essa a principal função do Museu e dos seus curadores, pelo que contribuir para esta missão faz com que esta tradição taxonómica volte a ser protagonizada pelo MUHNAC. Pesem todas as novas funções dos Museus de História Natural é importante retomar (e de certo modo reforçar) a sua função principal – descrever, catalogar e estudar a biodiversidade mundial».

O artigo agora publicado é também assinado por Mariana Marques, do Departamento de Zoologia e Antropologia do MUHNAC-ULISBOA, Andreas Schmitz, do Museu de História Natural de Genebra, na Suíça, e Aaron M. Bauer, do Departamento de Biologia, da Villanova University, nos EUA.