Coleção de Antropologia do MUHNAC fundamental para estudo sobre Neandertais

Investigadores espanhóis analisaram esqueletos da Coleção de Antropologia do MUHNAC-ULisboa para ajudar a reconstruir o desenvolvimento/crescimento dos Neandertais. Um estudo agora publicado na Science.

Chama-se El Sidrón J1. Com 7,7 anos, este rapaz pesava cerca de 26 quilogramas e media 111 centímetros. Era destro e apesar de tenra idade realizava tarefas de adultos, já que os dentes apresentam marcas de uso para trabalhar peles e fibras vegetais. Os dentes indicam ainda que quando tinha três anos terá sofrido de uma doença ou má-nutrição dada a presença de hipoplasia (manchas brancas nos dentes). A mãe foi identificada e sabe-se também que tinha um irmão mais novo.
 
Todas estas informações foram obtidas a partir de 138 peças oriundas do esqueleto, fragmentos de crânio e 30 dentes. El Sidrón J1 foi um Neandertal que viveu na Gruta El Sidrón, nas Astúrias, em Espanha, e foi descoberto em 1994 juntamente com as ossadas de mais 12 outros indivíduos – um grupo constituído por um total de sete adultos (quatro mulheres e três homens), três adolescentes e três crianças.
 
No estudo publicado na edição de 22 de setembro de 2017, da revista científica Science, investigadores do Consejo Superior de Investigaciones Científicas (CSIC), de Espanha, contam a sua história e compararam as suas ossadas com ossadas de crianças Homo sapiens sapiens para perceberem se os Neandertais apresentavam um nível de desenvolvimento semelhante ao do homem moderno.
 
Durante dez anos (entre 2007 e 2017), Luís Rios, investigador do Grupo de Paleoantropologia do Museo Nacional de Ciencias Naturales, do Consejo Superior de Investigaciones Cinetíficas (Madrid, MNCN-CSIC) e um dos autores do estudo, juntamente com os colegas, visitaram o Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa (MUHNAC-ULisboa) onde analisaram esqueletos que fazem parte da Coleção de Antropologia do Museu português.
 
Em relação a este estudo específico sobre o esqueleto juvenil do Neandertal do local de El Sidrón «uma importante parte da investigação baseou-se na comparação do crescimento e maturação do Neandertal com os esqueletos das coleções do MUHNAC», afirma o investigador.
 
«Fomos capazes de estimar a idade da morte do El Sidrón J1 (o Neandertal juvenil) em 7,7 anos através de técnicas de histologia dentária. Para isso, precisamos de estudar o crescimento e maturação dos esqueletos humanos modernos de idades semelhantes (entre os seis e dez anos), para ver se com idades semelhantes, os Neandertais e os homens modernos apresentavam padrões de crescimento diferentes» e a «maioria desses esqueletos de humanos modernos são do MUHNAC-ULisboa».
 
Luís Rios reconhece a importância da Coleção de Antropologia do MUHNAC, porque «coleções de esqueletos documentados, em termos de se saber o sexo e a idade da morte, são essenciais para a investigação sobre a biologia do esqueleto humano, a antropologia forense, a bioarqueologia e a paleoantropologia» e «na Europa, Portugal destaca-se no campo da Antropologia Física devido à sua longa tradição no ensino e na investigação e devido às coleções do MUHNAC-ULisboa e da Universidade de Coimbra».
 
Para além disso, explica, «no MUHNAC existem vários esqueletos documentados com idades entre os meses e vinte anos, um facto que torna esta coleção ainda mais valiosa, permitindo o estudo das várias fases de crescimento e maturação do esqueleto. Poderá ser ainda possível estudar a biologia do esqueleto através de todo o ciclo de vida, desde o nacimento até à velhice» e estas são algumas das «possibilidades que tornam a coleção do MUHNAC rara e valiosa para a investigação». 
 
Para Luís Rios «as visitas de investigação ao MUHNAC foram fundamentais para fazer este estudo, e em nome do Grupo de Paleoantropologia do Museo Nacional de Ciencias Naturales (Madrid, MNCN-CSIC), aproveito a oportunidade de agradecer ao MUHNAC e aos curadores da coleção pela gentiliza de nos ter garantido o acesso às coleções durante a nossa investigação».
 
Para o futuro, o investigador espera manter a estreita colaboração científica. «Ficaríamos muito contentes em continuar a fazer investigação no MUHNAC», nomeadamente, porque «gostaríamos de continuar o nosso estudo sobre os padrões de crescimento dos Neandertais e a próxima fase será a adolescência. Por isso, esperamos voltar brevemente a Lisboa e ao MUHNAC para outro período de investigação».