Observatório Astronómico da Escola Politécnica

O Observatório Astronómico da Escola Politécnica de Lisboa foi fundado em 1875 e é o único observatório oitocentista de ensino existente em Portugal.

Apesar de, no decreto fundador da Escola (1837), estar prevista a construção de um observatório astronómico, as aulas práticas de astronomia decorreram, até meados da década de 70 do século XIX, no Real Observatório da Marinha, instituição que funcionou, durante um período, no complexo dos edifícios da Escola Politécnica.

Em 1887, o Observatório Astronómico começou a evidenciar claros sinais de degradação na sequência da construção do túnel do Rossio. Reconstruído em 1898 de acordo com o plano de Victor Gomes da Encarnação e José Cecílio da Costa, o Observatório divide-se em três espaços: o edifício central com as suas três cúpulas, a “sala da meridiana” e a sala de aulas; um edifício de três pisos, onde se encontravam salas de aulas, gabinetes de professores e a biblioteca do Observatório; e um terceiro edifício que ficou conhecido por “barraca” e que era utilizado, sobretudo, para calibrar instrumentos.

O Observatório Astronómico manteve um estatuto autónomo, sendo um dos “estabelecimentos” da Escola Politécnica e, depois da Faculdade de Ciências, até à década de 30 do século XX, quando foi associado ao Departamento de Matemática da Universidade de Lisboa. Utilizado no ensino até cerca de 2002 (as cúpulas), o Observatório Astronómico encontra-se sob a tutela dos Museus da Univesidade de Lisboa e aguarda a execução de um projecto de recuperação e restauro, que o interprete e devolva à fruição do público.

Nota Histórica

Ao criar-­se a Escola Politécnica de Lisboa, em 1837, previu­‐se, desde a primeira hora, construir um observatório destinado às aulas práticas de Astronomia. Urgia dispor de mapas que permitissem conhecer os limites exactos do território nacional e colónias, organizar a administração, ordenar os círculos eleitorais e fiscais e projectar o desenvolvimento do país, traçando as infraestruturas viárias, telegráficas e ferroviárias que escasseavam em Portugal.

A Astronomia era justamente uma das ferramentas necessárias para se poder concretizar este objectivo. Na época, o primeiro passo no processo de mapeamento, o estabelecimento de uma rede de triangulação primária, dependia da Astronomia. Era recorrendo a esta ciência que se determinava a longitude e a latitude dos pontos geodésicos principais e era em função do cálculo dos azimutes que se orientava a rede de triangulação.

Em 1875, inicia-­se a construção do Observatório na zona superior do Jardim Botânico. O corpo principal do Observatório erguia-­‐se no aterro superior do Jardim encostado à muralha, ao passo que o corpo secundário do edifício, ocupado por um conjunto de salas de apoio, se encontrava construído junto à muralha. Contudo, a decisão de construir o Observatório no extremo do aterro do Jardim Botânico viria a mostrar-­‐se desafortunada a curto prazo. Poucos anos após a edificação, o Observatório começou a apresentar sinais de degradação acelerada resultado da falta de compactação dos terrenos em que havia sido erguido e, sobretudo, da abertura do túnel dos caminhos-­‐de-­‐ferro da linha de Sintra, na década de 1880. Reconstruído segundo os planos de Victor Gomes da Encarnação, o novo Edifício (principal) do Observatório foi inaugurado em 1898, sendo o Edifício Anexo anterior.

O Edifício Principal organizava-­‐se em função de duas salas nucleares, a Sala do Círculo Meridiano (ou Sala da Meridiana), na ala norte, e a sala de aula, na ala sul. Em torno destas divisões distribuíam-­‐se um conjunto de salas e gabinetes. O piso superior do Observatório era ocupado, como era comum nesta tipologia de edifício, pela cúpula central, acompanhada de duas cúpulas laterais. A morfologia do edifício deixava, deste modo, expressa a sua função: tratava-­‐se de um Observatório dedicado maioritariamente ao ensino da Astronomia Esférica.

Relevância Patrimonial

Os Museus Universidade de Lisboa têm sob sua tutela os dois últimos observatórios astronómicos históricos existentes em Portugal: um com tipologia de ensino – o Observatório Astronómico da Escola Politécnica (OAEP) – e outro com tipologia de investigação e dimensão de observatório nacional – o Observatório Astronómico de Lisboa, na Tapada da Ajuda – ambos construídos com poucos anos de diferença.

No contexto europeu, foram inúmeros os observatórios construídos no século XIX propositadamente para apoio ao ensino da Astronomia nas universidades e escolas superiores europeias. No entanto, sobrevivem apenas três com uma morfologia clara de formação e ensino, nomeadamente através da presença de uma sala de aula concebida no desenho original: os Observatórios de Leiden, Estrasburgo e Lisboa. Acresce a esta raridade o facto de o Observatório constituir parte integrante e indissociável do Jardim Botânico, um espaço de reconhecida importância científica e cultural e um dos mais importantes jardins portugueses, classificado recentemente como monumento nacional. Construído em 1878 também para apoio ao ensino da Escola Politécnica, o Jardim constitui um verdadeiro oásis científico e cultural no eixo Rato-Chiado. Todo o complexo museológico da Politécnica, herdeiro de uma linhagem de mais de 400 anos de ensino e estudo das ciências, tem um enorme contributo cultural a dar à cidade de Lisboa. Faz parte das prioridades da Universidade de Lisboa uma dinamização mais regular e continuada deste espaço, consolidando e fidelizando os cerca de 160 mil visitantes por ano e abrindo-o ainda mais à comunidade e à Cidade.

O Projecto de Recuperação

A recuperação do Observatório, para a qual o MUHNAC procura angariar fundos públicos e privados, encontra-se intimamente articulada com o projeto de restauro do Jardim Botânico. Especificamente no que diz respeito ao Observatório, a recuperação será ancorada em três pilares fundamentais: o reposicionamento da forte ligação entre Observatório e Jardim, o respeito pelo espírito original do local e o cruzamento de olhares disciplinares (ciência e arte), geográficos (Norte-Sul, Este-Oeste) e temporais (passado, presente e futuro). O edifício principal do Observatório, mais pequeno, será recuperado à traça e com os materiais originais, albergando a colecção de telescópios e outros instrumentos de astronomia como base para a interpretação daquele espaço e da sua história. A cúpula central dispõe de um telescópio Zeiss que ficará em funcionamento para observações do céu pelo público, que decorrerão regularmente, quer no edifício principal quer na ‘esplanada’ em frente . O edifício das Matemáticas, encostado à muralha, também será restaurado no respeito pela sua arquitectura original e terá uma dupla função: espaço público de complemento à interpretação do Jardim Botânico e do Observatório e instrumento de mobilidade no Jardim, através da transformação de uma das cúpulas em elevador. Terá também as principais infraestruturas de apoio ao público, nomeadamente cafetaria, sanitários e posto de vendas do Museu.