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Deriva

Exposição de Arte e Ciência

Data

13 Fevereiro - 3 Maio 2026

Local

Sala Azul | Museu

Exposição da artista Sofia Arez

A exposição reúne desenhos de sementes voadoras — formas mínimas que encerram o potencial da vida e evocam a condição humana: partir, deslocar-se, transformar-se.

Através de velaturas subtis e de um desenho atento e delicado, a artista dá forma a uma paisagem sensível. O seu trabalho nasce de caminhadas e de uma relação prolongada com a natureza, onde observar é um gesto de permanência e atenção. Deriva revela aquilo que habitualmente passa despercebido — formas discretas, estruturas frágeis e essenciais — tornando visíveis as dinâmicas silenciosas da vida.

Num contexto global de crise climática, perda de biodiversidade, deslocação forçada de populações e crescente instabilidade geopolítica, Deriva ganha uma ressonância particular. O voo de uma semente — frágil, exposta aos ventos, dependente do lugar onde irá pousar — espelha a vulnerabilidade de milhões de vidas humanas em trânsito, bem como a precariedade dos próprios ecossistemas. As sementes tornam-se, assim, imagens de sobrevivência, adaptação e reinvenção em cenários de incerteza.

Derivar não é perder-se: é responder às forças do mundo, procurar condições de vida, criar raízes onde isso se torna possível. Num tempo em que territórios se transformam, fronteiras se endurecem e o equilíbrio ecológico se fragiliza, a obra de Sofia Arez recorda-nos que o movimento é estrutural à vida — e que, mesmo na instabilidade, persiste a possibilidade de futuro.

Curadoria: Sofia Marçal

Inauguração: 12 fevereiro, 18h30

 

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Um mundo em devir

O Museu Nacional de História Natural e da Ciência é o lugar ideal para apresentar a exposição Deriva da artista visual Sofia Arez, tal como o foi nas duas exposições anteriormente realizadas neste espaço, nas quais a artista explorou o mundo dos fungos e dos líquenes[1]. Agora o desafio é sobre sementes voadoras e, citando a artista: “As sementes que voam – como as do dente-de-leão ou do ácer – captam algo essencial sobre a condição humana. Levadas pelo vento, afastam-se da árvore que as gerou, sem saber onde irão pousar. Pequenas, delicadas e leves, cada semente contém em si todo o potencial da vida. Da mesma forma, os seres humanos nascem no mundo e são imediatamente moldados por forças invisíveis – cultura, sonhos e acasos.”

Estes desenhos vêm no seguimento da contínua entrega e dedicação que Sofia Arez emprega na realização do seu trabalho artístico e de investigação. Nos caminhos percorridos pelas florestas e planícies, onde recolhe as sementes e as leva para posteriormente as desenhar, numa observação atenta e cuidada. “Esta é aquela força que, por estabelecer vínculos, os platónicos dizem que adorna a mente com a ordem das ideias; que preenche o espírito com a sequência dos raciocínios e com discursos harmoniosos; que fecunda a natureza com sementes variadas; que dá forma à matéria com uma infinidade de condições; que vivifica, aplaca, acaricia, estimula todas as coisas; que move, abre, ilumina, purga, satisfaz, completa todas as coisas.”[2] Os desenhos traduzem a harmonia transformadora das sementes, evidenciando as suas relações com os elementos dos quais dependem e que sustentam a vida.

Sofia Arez, na sua busca persistente de conhecimento, alia a ciência à arte numa parceria frutuosa; nesse sentido, deslocou-se várias vezes ao museu, onde tomou contacto com o Banco de Sementes A. L. Belo Correia, com a Domitila Brotas, assim como envolveu os coordenadores do Jardim Botânico da Ajuda, Ana Luísa Soares, e do Jardim Botânico de Lisboa e Jardim Botânico Tropical, César Garcia. Com esta ligação direta às coleções do museu e aos jardins botânicos de Lisboa aprofundou a sua investigação que se reflete na densidade dos seus trabalhos artísticos. Com a dinâmica própria de cada forma de conhecimento, estabelecendo a ponte entre a criatividade e a racionalidade, Sofia Arez cria um compromisso de experienciar a natureza, agora a desenhar sementes voadoras.

Como já referido, a exposição Deriva vem na sequência do conhecimento e da perceção das sementes e da sua essência material por parte da artista. Esta representação é diferente do objeto real, neste caso as sementes voadoras – transportadoras frágeis, mas resilientes, de continuidade e mudança. Walter Benjamin lembra-nos que “Mesmo na reprodução mais perfeita falta uma coisa: o aqui e agora da obra de arte – a sua existência única no lugar em que se encontra. É, todavia, nessa existência única, e apenas aí, que se cumpre a história à qual, no decurso da sua existência, ela esteve submetida. (…) O aqui e o agora do original constitui o conceito da sua autenticidade.”[3] No trabalho de Sofia Arez, porém, não estamos perante uma reprodução no sentido técnico do termo, mas perante a criação de um novo aqui e agora, próprio do desenho enquanto obra autónoma. Estes desenhos de uma delicadeza subtil, transportam um conhecimento muito rigoroso, próximo do desenho de ilustração científica. Demonstram que Sofia Arez tem vindo a aperfeiçoar o seu desenho, assim como a apurar a sua curiosidade pela botânica. Estes apontamentos estéticos e estáticos foram transformados em desenhos numa ótica poética de deleite.

Na exposição Deriva, Sofia Arez propõe uma visão do mundo em movimento, desde o voo quase impercetível de uma semente até aos movimentos tumultuosos da humanidade. Uma visão poética, muitas vezes como se observássemos um bailado num fluxo eterno e quase divino. Assim, o emergir constante desses movimentos – mesmo das sementes mais ínfimas –, que se transformam incessantemente, vai construindo um mundo em devir.

 

Sofia Marçal

 

 

[1] Exposição Desvio, de 4 de março a 30 de agosto de 2020 e exposição Symbiosis, de 10 de novembro a 13 de dezembro de 2022.

[2] Giordano Bruno, Os Vínculos, p. 19

[3] Walter Benjamin, in: Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, p. 77.