A distância da Folha
Data
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Exposição da artista Amanda Triano
Esta exposição convida à reflexão sobre a prática artística ambientalmente comprometida introduzindo, assim, o tema do eco arte criticando as ainda operantes conceções estéticas de natureza, bem como as suas transposições para o domínio das artes visuais, nos seus processos, nos seus modos de apresentação e de institucionalização. Amanda Triano acredita que não existe melhor lugar como remate final de todo o seu processo de mestrado que fazer a primeira apresentação pública neste museu. O espaço que traz muitos dos processos criativos e conceptuais, objetos, imagens, representações, sistemas visuais no mesmo plano, e onde mais tarde no espaço de exposição se relacionam e acabam se conectarem criando formas de pensamento crítico baseado no objeto artístico e na arte contemporânea.
Curadoria: Sofia Marçal
Inauguração: 7 de agosto, 18h00
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Contudo, todo o esmorecimento é apenas um adiamento
A exposição, A distância da Folha da Artista visual Amanda Triano constrói-se numa estética de apropriação de conceitos pré-definidos, mas com uma nova leitura, numa autenticidade perene e como forma expandida que entrecruza o presente e o espaço-tempo ab origine da presença humana. “A única produção cultural autêntica dos nossos dias parece ser aquela que pode nutrir-se da experiência coletiva de bolsas marginais da vida social do sistema mundial.”[1] Com essa atitude a artista investiga as condições passadas e presentes dos locais urbanos, assim como a fronteira entre o natural e o artificial, entre o original e a cópia, propondo o espaço expositivo como um laboratório onde a Natureza é pensada não como um elemento fixo, mas como um campo em constante transformação. Problematizar as formas como a Natureza tem sido representada, controlada e objetificada, revelando estruturas de poder ainda persistentes nas práticas culturais e institucionais contemporâneas.
Citando a artista, “trabalho com argila e cimento, investigo as suas origens para retratar a sua memória material inerente. Compostos por materiais naturais como o calcário, a argila, o cimento e a cerâmica, são elementos que existem como vestígios geológicos da Natureza, mas também como produtos da engenharia humana.” A instalação Anarqueologia do pós-natural, composta por cinco esculturas em cimento, ocupa o centro da sala. Em cima das bancadas, Topiaria Ornamental duas esculturas em grés vidrado, sendo menos processado é mais adequado. Instalada na hotte a peça Sem título, uma flor em cerâmica que é a peça central que unifica a exposição.
Na bancada oposta, a instalação Omana, constitui o núcleo sensível e conceitual da exposição. Composta por duas folhas em cerâmica e um livro aberto - objeto de estudo contínuo da artista — a peça apresenta sublinhada a frase, “contam os Yanomami que Omama, o demiurgo, criou a árvore dos sonhos a fim de que os homens pudessem sonhar. [2] Este gesto, simultaneamente material e simbólico, convoca a cosmologia indígena como contra-narrativa à tradição ocidental que separa Natureza e cultura. A instalação propõe-se como um espaço de escuta e reorientação: a Natureza não é aqui um elemento decorativo ou ilustrativo, mas presença inseparável e ativa.
Pode passar despercebida e essa é a intenção da artista, a instalação Engenharia Reversa, um friso em cimento, instalado à volta da sala, como uma predela que evoca a sua função iconográfica de complementar a cena representada na exposição. Como imaginar o que será da Natureza depois de tantos processos de transformação? No campo da arte contemporânea, essa questão torna-se cada vez mais urgente, à medida que a própria ideia de Natureza é posta em crise.
O trabalho de Amanda Triano propõe uma reflexão crítica sobre a Natureza enquanto construção arquivística no pensamento ocidental. Fomos ensinados a arquivar, musealizar e institucionalizar a Natureza — a fixá-la como objeto de saber, controle e contemplação. Nesse processo, a Natureza é transformada em fósseis simbólicos: imagens, materiais e formas que condensam uma memória congelada do mundo natural. Através de suas obras, Amanda ativa essas camadas fossilizadas, criando uma cumplicidade tensa entre passado e presente, onde matéria e discurso se entrelaçam numa arqueologia viva das relações entre humanidade e Natureza.
Citando a artista, “partindo de referências do Jardim Botânico de Lisboa, as instalações exploram formas reconhecíveis que oscilam entre o orgânico e o industrial, desafiando noções herdadas de utilidade, controle e representação. O resultado é uma coreografia de matéria, tempo e percepção. "A forma como percebemos os trabalhos apresentados está diretamente ligada à posição do nosso olhar. Há uma evidente dilatação do tempo e do espaço, como se as obras operassem para além dos seus contornos materiais e do contexto expositivo. Ainda assim, não deixamos de estar num cenário: o museu continua a ser um palco carregado de sentidos, onde o gesto de expor também é um gesto de inscrever, de construir narrativa, de controlar o visível. “O real é um tecido sólido, ele não espera os nossos juízos para anexar a si os fenómenos mais aberrantes, nem para rejeitar nossas imaginações mais verossímeis. A percepção não é uma ciência do mundo, não é nem mesmo um ato, uma tomada de posição deliberada; ela é o fundo sobre o qual todos os atos se destacam e ela é pressuposta por eles.”[3]
Amanda Triano procura evocar uma Natureza como corpo erodido, como ruína ativa, como arquivo em disputa. A distância da Folha vive num tempo aberto, entre o que foi e o que está por vir. A obra ultrapassa o presente e se projeta num horizonte que desafia o mundo que habitamos. A própria ideia de proximidade está associada a uma vastíssima distância, que também é absorvida pela continuidade da sua apropriação e, contudo, todo o esmorecimento é apenas um adiamento.
A exposição vem na sequência da tese de mestrado que Amanda Tirano realizou na FBAUL, com o título A problemática da Natureza viva como objeto artístico: Contemporary Enviromental Artists (are my passion), foi defendida em julho de 2024.
Sofia Marçal
[1] Fredric Jameson, in: Revista Crítica de Ciências Sociais, nº 4/5 outubro de 1980. Cultura de massas, p.34
[2] Hanna Limulja, in: Uma etnografia dos sonhos yanomami – O desejo dos outros, p.21.
[3]Merleau Ponty, in: Fenomenologia da Percepção, p.6.