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A Indulgência da Lentidão - Ecossistemas da Atenção

Exposição de Arte e Ciência

Data

6 Março - 12 Abril 2026

Local

Museu

Exposição da artista Natercia Caneira

A exposição marca um momento de síntese na carreira da artista, após o seu percurso internacional por instituições como a Universidade de Harvard e a Fundação Chashama (Nova Iorque). O projeto propõe uma viagem imersiva entre a natureza, a filosofia e o deslocamento, transformando a Sala Allosaurus (Piso 0) num território liminar — uma "zona-tampão" onde a reclusão do rigor geométrico, inspirada na arquitetura soviética, colide com a fluidez biológica da floresta.

O projeto foca-se na observação científica através de métodos de registo detalhado, explorando a morfologia de "Novos Organismos" e cruzando a antropologia e a geografia para questionar a filosofia do tempo: a lentidão versus a aceleração.

Destaques da Exposição:

  • A Geopolítica do Corpo e o Não-Lugar: O cerne da exposição reside na experiência da transmigração (displacement). A instalação site-specific "Axis" materializa a linha imaginária entre o conforto herdado e a urgência da partida em territórios desconhecidos.
  • Novos Organismos: Na Polónia, a reclusão é vivida entre a parede de betão da sua unidade habitacional e a Floresta de Białowieża (Puszcza Białowieska). O contraste entre a artista, como estrangeira em trânsito, e o ciclo biológico milenar dos insetos, dá origem a morfologias especulativas e exosqueletos segmentados.
  • O Lugar da Solitude: A exposição convida o público a desacelerar, reconstruindo a experiência do olhar num ambiente que convoca tanto o rigor da ciência como a poesia do desconhecido.

Curadoria: Sofia Marçal

Inauguração: 5 de março, 18h00

 

CONVITE

 

PROGRAMA ASSOCIADO

8 de abril, 18h00

Ecossistemas da atenção
Uma conversa sobre Migração, simbiose e geopolítica do corpo. 

Mais informações aqui

 

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A insustentável leveza do ser[1]

A artista visual Natércia Caneira tem vindo a desenvolver um trabalho muito consistente ao longo da sua vida artística, num pensamento lógico e inquietante que se revela nos seus trabalhos onde se problematizam temas pertinentes, como é o caso da Bioarte[2]. A maturidade do seu trabalho, aliada à investigação numa insubmissão de si própria, gera uma desobediência intrínseca que conduz ao seu ato de criação e à materialização das suas obras.

Na exposição A Indulgência da Lentidão - Ecossistemas da Atenção os trabalhos apresentados incorporam a coexistência de múltiplos significados que assumem, inevitavelmente, uma dimensão de alteridade, onde o tempo, a matéria, a paisagem, a identidade, se diluem uns nos outros. “Se um lugar pode se definir como identitário, relacional e histórico, um espaço que não pode se definir nem como identitário, nem como relacional, nem como histórico definirá um não-lugar.”[3] Fruto de uma reflexão sobre o tempo no fazer artístico e científico e a consequente interligação,  a perceção de Natércia Caneira foca-se numa procura incessante do visível que se vai desvelando e desenvolvendo na exposição.

Estes trabalhos foram realizados na Polónia, na fronteira com a Bielorrússia, onde a artista se confrontou com a problemática das migrações, das fronteiras, assim como da sua fragilidade exposta a uma realidade até então para si desconhecida. A instalação forest evoca os ecossistemas de proximidade onde viveu e realizou a sua investigação: a paisagem singular do Parque Nacional de Narew (Narwiański Park Narodowy), junto a Łapy, e a milenar Floresta de Białowieża (Puszcza Białowieska). Esta peça impõe-se no meio da sala e dá o mote à exposição, assim como a outra instalação Axis que transmite a ideia de deslocação, de migração. Estas duas instalações estão rodeadas por telas, desenhos e objetos que reforçam este conceito. 

Natércia Caneira constrói aqui a sua intimidade concetual num movimento de expansão e de inclusão, onde emergem reações criativas reativas à sua introspeção filosófica e existencial.  “Pode-se ter uma visão de mundo que concentra o tempo no ‘agora’ e o espaço no ‘aqui’. A visão de mundo difere segundo a cultura. Em outras palavras, a postura em relação ao tempo e ao espaço, a imagem e a ideia que se tem deles, por exemplo, não são universais, não ultrapassam as diferenças culturais e, com certeza, seguem um padrão próprio de cada cultura.”[4] Natércia integra nos seus trabalhos vários tempos, vários espaços, várias culturas, mas só uma estética, a sua, numa relação com esses territórios desconhecidos.

A sala de exposição está transformada num território, um território carregado de memórias vividas pela artista na sua breve, mas fecunda passagem pela Polónia. Citando a artista, “a instalação transforma a Sala num território liminar onde o imaginário e o científico coexistem, desafiando a aceleração do olhar e convidando o visitante a uma reflexão profunda sobre a pertença, a solitude e a beleza que reside na periferia da atenção.” O tempo faz perdurar o espaço na memória do corpo, num confronto com a ausência, onde o encontro com o lugar nos encaminha para a materialização dos trabalhos aqui expostos; desenhos, instalação, pinturas e esculturas numa orgânica de site-specific, onde se convoca uma observação cuidada, que não é racionalmente imaculada.

Assumindo uma atitude exploratória a artista delineia a geopolítica do corpo, numa intencionalidade de recriar ecossistemas invisíveis e a identidade fluida dos não-lugares.

 “O mundo tem uma só dimensão para nós, nele não há segredos nem sombras, conseguimos adivinhar e criar a dor que desconhecemos em virtude da força fantasiosa de que somos animados, mas o vemos sempre sob aquela luz estéril e gélida das coisas que não nos pertencem, que não têm raízes dentro de nós.”[5] Não obstante, a vida recria-se e germina, onde o saber sensorial, artístico, emotivo e filosófico de Natércia Caneira se sobrepõe a uma negação do desconhecido numa imensidão crescente de encontros e desencontros; e aí a arte revela-se e assume-se na sua plenitude.

Os trabalhos artísticos aqui apresentados refletem uma poética que se desenha numa exposição que advém de um duplo olhar artístico e científico. As memórias de Natércia Caneira, a sua vivência e o seu registo temporal, incorporam-se num qualquer lugar que não seja apenas distópico, onde existe a possibilidade da sua contaminação e abertura ao mundo, em comunhão com o saber artístico e científico.

Sofia Marçal

 

 

[1] Apropriação do título do livro do escritor checo, Milan Kundera, 1ª edição, 1984.

[2] A Natercia realizou a exposição A Metamorfose das Formas Simples // Bioarte - The Intuitive Behavior, no Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa em setembro de 2023.

[3] Marc Augé, in: Não-lugares, p.73.

[4] Shuichi Kato, in: Tempo e espaço na cultura japonesa, p.18.

[5] Natalia Ginzburg, in: As pequenas virtudes, p.66.