A PORTA QUE FALTA | THE MISSING DOOR

Objeto do mês de agosto 2020

Prova fotográfica [Retrato de Amadeu Regueira Marques de Castilho Soares em pose no espaçamento do corte de um Poilão]|Photographic proof [Portrait of Amadeu Regueira Marques de Castilho Soares posing in the empty space, left by the carving in the trunk of the tree]

Acabava o ano de 1959 quando os arquitetos Fernando Schiappa de Campos e António Saragga Seabra, e o sociólogo Amadeu de Castilho Soares viajaram até ao território da Guiné-Bissau – na altura uma colónia portuguesa – para a Missão de Estudo do Habitat Nativo da Guiné. A Missão tinha como objetivo estudar a arquitetura tradicional das diferentes comunidades e etnias da região.

Uma dessas etnias, os Papéis, mantinha uma peculiar prática envolvendo materiais locais e um respeito pela natureza envolvente. Com efeito, após a construção da habitação, faziam a porta a partir de uma peça única, cortada e talhada a partir da árvore do poilão, também conhecida como mafumeira ou algodoeiro (Ceiba pentandra). Esta forma de viver harmoniosa com a natureza permitia manter a árvore viva, com grande longevidade.

Na prova fotográfica pertencente às Coleções de Fotografia do Museu e IICT, produzida em setembro de 1959 na zona do Biombo junto ao Sector Autónomo de Bissau, podemos ver Castilho Soares em pose num espaço vazio, que se percebe ser o da “porta que falta” deixado pelo corte no tronco de um Poilão.

O objeto deste mês apresenta essa ausência, essa ‘porta que falta’, documentada pelos desenhos, fotografias e algumas notas produzidas pelos investigadores e obtidas a partir de publicações. Sendo o objeto em si mesmo impossível de apresentar, é a própria documentação de recolha do trabalho de campo que lhe confere essa materialidade.

O espólio documental referente a esta missão foi doado ao IICT pelo arquiteto e chefe desta missão Fernando Schiappa Campos em 2014.

 

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