Displacement

Exposição de María Renée Morales Lam

Quando: 
5 de Agosto de 2021 a 31 de Agosto de 2021
Onde: 

Laboratório de Química Analítica | Museu Nacional de História Natural e da Ciência

O processo artístico como forma de investigação e de preservação do quotidiano

María Renée Morales Lam, artista plástica franco-guatemalteca, nasceu na Cidade de Guatemala. Vive e trabalha em Lisboa.  Esta exposição vem na continuação do trabalho que a artista tem vindo a efectuar e na sequencia da sua exposição no museu Hallwyl em Estocolmo. A problemática da exposição inscreve-se no questionar a sociedade e o valor dos objectos: como se está a preservar a História? Quem escolhe o que se preserva? Como preservamos e porquê? Quem decide o que fica no museu para sempre e o que fica de fora? “É o museu a forma final de compreensão, de julgamento? A palavra «julgamento» é também uma coisa terrível. É tão aleatória, tão frágil.”[1] Estas são as dúvidas que María Renée coloca através dos seus trabalhos.

 

A exposição Displacement também pretende questionar a relação do fazer. A relação da obra com o espaço e com o tempo, perpetuando-se um diálogo entre a matéria, a forma e a sua preservação. A construção destas peças é a consequência do trabalho de investigação da María Renée, reflectindo um percurso artístico em permanente diálogo com o resguardar do quotidiano. “O amor, por outro lado, é a vontade de cuidar, e de preservar o objeto cuidado. Um impulso centrífugo, ao contrário do centrípeto desejo. Um impulso de expandir-se, ir além, alcançar o que "está lá fora". Ingerir, absorver e assimilar o sujeito no objeto, e não vice-versa, como no caso do desejo. Amar é contribuir para o mundo, cada contribuição sendo o traço vivo do eu que ama.”[2] María Renée interessa-se por objectos que são ignorados e gosta de trabalhar a ideia de preservação.

 

Estamos perante um conjunto de momentos e de interações entre saberes e objectos.  Citando a artista. “O meu trabalho tenta evidenciar as ações não visíveis”.  María Renée trabalha com o conceito de artesanato, a transmissão de informação quer oralmente quer na sua prática, tem como intenção ser um tributo/diálogo com o artesanato português. O vidro e a porcelana são os materiais utilizados pela artista na realização dos seus trabalhos.  Estes materiais frágeis contrastam com a austeridade da sala, outrora um laboratório de química analítica, com as suas paredes de azulejos brancos e bancadas monocromáticas, local de investigação, introspeção.

 

A exposição Displacement é composta por 6 obras que focam os elementos arquitectónicos do quotidiano que chamaram a atenção da artista pelo seu aspecto formal ou emocional.

 

Álamo - Peça executada em vidro a partir de moldes de telhas de uma casa em Álamo no Algarve, feitas à mão por volta de 1950, transmissão de informação de material para material. As peças foram fundidas directamente nas telhas guardando os vestígios das telhas de canudo.

 

Ornamento Inexplorado - Peça executada em porcelana fina branca, baseada nos muros dos pátios alentejanos. Executada com moldes em gesso que depois de seco é preenchido com porcelana. Cada passo no processo de execução desaparece.

 

Cada Pedra se Encaixa. A calçada é um dos símbolos mais importantes de Lisboa e é feita à mão, mas todos os dias ao caminharmos pisamo-la.  A Calçada portuguesa foi exportada por exemplo para o Brasil. Esta transmissão de informação interessa à artista. A calçada começa no Castelo de S. Jorge, num antigo quartel, mas desapareceu quando reconstruiram o castelo.  As peças aqui apresentadas foram retiradas de moldes da Av. Da Liberdade, Rossio, Largo do Carmo, Rua do Patrocínio, 63 (A 1ª casa da artista em Lisboa). Rua da Imprensa Nacional, 34A a sua 2ª casa. A María Renée martelou o barro na rua, para criar moldes de porcelana.

 

Desgaste (Escadas). Peça executada em fundição vidro. Fabricada a partir de um molde das escadarias da FBAUL, nota-se o desgaste do pisar, do passar do tempo. A interação das pessoas com o objecto.

 

Património do Estado, 1884. Peça em vidro, o molde utilizado foi a bandeira de uma porta, feita de ferro forjado a mão na Rua Pereira Henriques perto do atelier da artista em Marvila.  Para executar esta peça foram necessários 35Kg de gesso.

 

Por último temos a peça Jacarandá, Cidade da Guatemala colocada estrategicamente na Hotte, é composta por uma semente de Jacarandá que a artista trouxe da Guatemala. Os jacarandás vieram originalmente do Brasil trazidas pelo biólogo Félix Avelar Brotero, director do Jardim Botânico da Ajuda de 1811 a 1826. A calçada portuguesa foi para o brasil e o jacarandá para lisboa. Estas sementes têm uma ligação afectiva com a María Renée, citando a artista, “o pátio de casa da minha avó estava cheio de Jacarandás, só à pouco me apercebi que as sementes que eu via em pequenina eram de Jacarandá, nesse momento o seu cheiro trouxe-me antigas memórias.” O processo do fabrico desta peça é do alginato para a cera e depois para o gesso e finalmente para a porcelana.

 

Trabalhos contemporâneos feitos a partir de materiais antigos, executados como fendas no tempo que nos permitem espiar a História. Transportam memórias e relatos dos seus fabricantes, dos seus processos de fazer, sobre o material e sobre o território ao qual os objetos pertenciam originalmente. Para a María Renée foi um processo de aprendizagem. “A exemplar opção do artista moderno pelo silêncio raramente é levada a tal ponto de simplificação final, de forma que se torne literalmente silencioso. O mais usual é que continue a falar, mas de uma maneira que seu público não pode ouvir. A maioria da arte de valor de nosso tempo tem sido experimentada pelo público como um movimento em direção ao silêncio (ou à ininteligibilidade, à invisibilidade, à inaudibilidade); como um desmantelamento da competência do artista, de seu sentido responsável de vocação — e, portanto, como uma agressão contra eles.”[3] Todos estes trabalhos pertencem ao nosso imaginário colectivo, e são acessíveis. Normalmente não reparamos neles, e aqui na exposição, a artista dá-lhes importância, e nós como espectadores preservamos o momento.

 

Sofia Marçal

 

 

1 - Ornamento Inexplorado

2021

Porcelana, estrutura em ferro

 

4- Desgaste (Escadas)

2021

Vidro, ferro

2 - Património do Estado, 1884.

2021

Vidro float, cavaletes em ferro

5 - Cada Pedra se Encaixa

2021

Porcelana, arquivador de papel antigo

 

3 - Álamo

2021

Vidro float, estrutura em ferro

6 - Jacarandá, Cidade da Guatemala

2021

Semente de jacarandá, latão, porcelana e madeira de nogueira

 

 

 




[1] Marcel Duchamp, in: Engenheiro do tempo perdido. Entrevistas com Pierre Cabanne, p.111.

[2] Zygmunt Bauman, in: Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos, p.20.

[3] Susan Sontang, in: A vontade Radical, a estética do silêncio, p.12.

 

Exposição de Arte e Ciência