Entretecimentos

Exposição da artista plástica Conceição Abreu

Quando: 
3 de Setembro de 2021 a 3 de Outubro de 2021
Onde: 

Sala Azul | Museu Nacional de História Natural e da Ciência 

Lançamento do catálogo da exposição: 23 de setembro | 19h00


Tecer, enlaçar, caminhar, fotografar, desenhar, criar

A exposição Entretecimentos é composta por fotografia, desenho, vídeo e tricot.   Conceição Abreu é capaz de abarcar diferentes representações visuais e diferentes médiuns, contribuído assim para a dissolução das fronteiras visuais e agregar campos de reflexão e de conhecimento tradicionalmente separados.

O conceito da exposição deve ser entendido da forma mais ampla e genérica independentemente do tipo dimensional, tecnológico ou intencional que a artista lhe queira atribuir. A artista explora este conceito a partir da repetição do gesto, gestos criados para perdurarem no tempo, consciencializados e fixados nos trabalhos expostos, presentes ou ausentes.  “É um eu insaciável do não-eu que, a cada instante, o manifesta e o exprime em imagens mais vivas do que a própria vida, sempre instável e fugidia.”[1]

A ligação ao Museu Nacional de História Natural e da Ciência é evidente e natural. Citando Conceição Abreu, “a exposição aproxima-se da missão pública deste Museu ao promover a curiosidade e a compreensão da Natureza e Ciência, propõe-se produzir um espaço aberto à reflexão da relação entre Homem e a Natureza. Tendo como campo exploratório o Jardim Botânico de Lisboa, os trabalhos que englobam esta proposta, emergem de uma investigação conduzida pelas ações experimentadas no campo háptico, através de estímulos sinestésicos e tácteis, estruturando ligações e entrelaces que realizam relações.”

As três fotografias de maior escala representam palmeiras, plantas emblemáticas do museu, escolhidas também pelo facto de serem produtoras de fibras ou fios que servem para fabricar utensílios trançados. Conceição Abreu cria com o seu trabalho que articula no processo repetitivo, possibilidades de relação reciproca entre aquilo que a envolve e ela própria. “De novo a inquietação tomou-a, pura, sem raciocínios. Ah, talvez eu deva andar, talvez... fechou os olhos um instante, permitindo-se o nascimento de um gesto ou de uma frase sem lógica. Fazia sempre isso, confiava em que no fundo, em baixo das lavas, houvesse um desejo já dirigido para um fim.”[2] Os desenhos, por sua vez,  são contornos ou percursos que a artista faz à volta das folhas das plantas e das árvores, percebidos enquanto linhas que quando sobrepostas vão criando redes, malhas, na mesma folha de papel. Numa ideia de entretecimento e de malha que interessam à artista e que procura dar-lhes visualidade no seu trabalho.

Outras três fotografias são fotografias com tricot, os desenhos na exposição também se misturam com fotografias, constroem também uma malha os desenhos da Conceição Abreu a percepção que a natureza neles se reproduz.

O vídeo mostra-nos o caminhar artístico de Conceição Abreu, da sua apropriação da natureza, de uma artista caminhante. Entramos no espaço e no tempo da criação artística, deixamos de estar na sala para sermos levados para o ar livre. As caminhadas no meio da natureza e a necessidade de o percorrer também como pesquisa de campo e fazem parte da análise e consciencialização da artista. Nelas procura construir a ligação Homem-Natureza, na relação não dominante entre o corpo e o meio ambiente, materializando-a nos seus trabalhos.

As ações como caminhar, fotografar e desenhar são integrantes da prática artística de Conceição Abreu e da sua essência. “Tais imagens devem, ao menos, ser tomadas em seu ser de realidade de expressão. É da expressão poética que é tirado todo o seu ser. Diminuiríamos o seu ser se quiséssemos relacioná-las com uma realidade, mesmo uma realidade psicológica. Elas dominam a psicologia. Não correspondem a nenhum impulso psicológico, afora a pura necessidade de exprimir, num lazer do ser, quando se escuta, na natureza, tudo o que não pode falar. É supérfluo que tais imagens sejam.”[3] É o equilíbrio de construção desse entretecimento que gera o conhecimento sensível e único da artista.

Como nos diz Conceição Abreu “Partindo de um modelo processual de sistematização na repetição, os gestos de fotografar o jardim e de desenhar- contornar as silhuetas das folhas das suas árvores e arbustos, inscrevem-se como um espaço relacional entre o corpo que se desloca, esconde e descobre no tempo, um corpo com memória, e o jardim que o afeta. Práticas que se efetivam em dinâmicas entre interioridade e exterioridade, presente e passado e que criam cartografias que, no espaço expositivo, se apresentam como referência para o estabelecimento de outros entretecimentos e novas relações futuras.”

 

Sofia Marçal




[1] Charles Baudelaire, in: O pintor da vida moderna, p.5.

[2] Clarice Lispector, in: Perto do Coração Selvagem, p.42

[3] Gaston Bachelard, in: A Poética do Espaço, p.312

Inauguração dia 2 de setembro das 17h00 às 20h00. 

Exposição de Arte e Ciência