Deixar cair a pedra no lago, a tinta no chão

Exposição de Marta Sampaio Soares

Quando: 
6 de Junho de 2019 a 21 de Junho de 2019
Onde: 

Claustro | Museu Nacional de História Natural e da Ciência

O gesto, o silêncio, o gesto, a tinta, o gesto, a gota

Na arte performativa o referendo é muito contundente, é uma a arte apropriacionista, o artista apodera-se do outro para a construção do seu trabalho artístico. A artista plástica Marta Sampaio Soares explora este conceito a partir do silêncio e da repetição do gesto. Citando a artista ”Na performance, o silêncio acontece com o gesto de embeber e deixar escorrer as gotas de tinta, mais rápidas ou lentas, grossas ou finas, até caírem na lata de tinta ou papel.”

A instalação Deixar cair a pedra no lago, a tinta no chão localizada no corredor da geologia é a memória do gesto da artista, gestos criados para perdurarem no tempo, consciencializados e fixados nos vestígios deixados. É a percepção da abstracção, como compreensão do ponto de vista mais conceptual da linguagem. Existe uma convicção forte daquilo que são as marcas, da própria materialidade, dos próprios gestos e do próprio corpo, antes de serem performativas.

Este projecto artístico vem na sequência do trabalho anterior da artista onde a questão do automatismo formal e a valorização do tempo se conjugam numa linguagem por vezes materializada em pinturas, esculturas ou desenhos ou como é o caso da presente exposição num acto performativo. A efemeridade que se impõe no acto é transportada e fixada como exposição.

“Definir a eternidade como uma quantidade maior que o tempo e maior mesmo do que o tempo que a mente humana pode suportar em ideia também não permitiria, ainda assim, alcançar sua duração. Sua qualidade era exactamente não ter quantidade, não ser mensurável e divisível porque tudo o que se podia medir e dividir tinha um princípio e um fim. Eternidade não era a quantidade infinitamente grande que se desgastava, mas eternidade era a sucessão.” (Clarice Lispector, in Perto do Coração Selvagem)

Nesta performance e posteriormente na instalação, é a sucessão de gestos que a enaltece e que lhe dá consistência. Herdeira dos movimentos happening e fluxos dos 50, 60 nos vários domínios culturais, extensiva à vida quotidiana com o objectivo de promover uma transformação social profunda. Onde a arte está ligada à vida e o objecto artístico não é um bem comercial.

Ao estarmos num museu de ciência faz mais sentido a realização desta instalação, enquanto acto experimental, continuando a citar a artista ”O silêncio que ocorre durante o processo, numa repetição por vezes extenuante, tal como a de Marie Curie, instaura um sentido num território liberto do que é excessivo. Um lugar que resiste ao excesso do quotidiano. Um espaço de abandono, de despojamento, de espera de quem quer conhecer uma verdade material ou estética. O gesto performativo simples é repetido e como no processo científico, o acidental e o impreciso dão sentido ao desconforto de horas de observação ou manuseamento, aqui na performance de desconforto físico, compondo nuances, aceitando desvios, desafiando a perícia.”

Deixar cair a pedro no lago, a tinta no chão é como uma longa caminhada, onde o sacrifício se impõe com a sucessão de gestos levados à exaustão, é como caminhar sem caminhar, pelo espaço, pelo ambiente, pelo museu, nos seus corredores e criar marcas, mesmo que estas se apaguem com o tempo.

 

Curadoria

Sofia Marçal     

 

Inauguração dia 5 de junho, às 19h00

Performances - 5 de junho às 19h00 | 19 de junho às 19h00

Exposição de Arte e Ciência