Mondothèque – Cabinet de páginas

Exposição de Paulo T. Silva

Quando: 
13 de Janeiro de 2021 a 2 de Maio de 2021
Onde: 
Laboratório de Química Analítica

O Elogio da Sombra

 

A Exposição Mondothèque Cabinet de páginas de Paulo T. Silva, é uma montagem separada de páginas no espaço temporal do Laboratório de Química Analítica, onde a palavra é que convoca o desenho. Citando o artista, “um gabinete construído na relação com um gabinete de páginas, páginas com formatos diferentes. Nessas páginas estão apenas elementos textuais e desenhos. Desenhos meus com formas proporcionais ao tamanho interior da página. Foi o formato do livro que me deu o meu espaço. Deixei o espaço ao outro para criar as suas imagens através das palavras.” O artista propõe-se capaz de abarcar construções visuais, representações visuais independentemente do tipo dimensional, tecnológico, intencional ou histórico para se projetar na ausência do outro e construir assim os seus trabalhos artísticos.

A abordagem do Paulo T. Silva na realização da exposição é muito conceptual. Idealiza um Cabinet de curiosités construído por páginas e livros numa estreita relação do Cabinet com o Atlas. O atlas é a relação entre vários objetos que nos remete para o Atlas de Warburg, constituído por 63 placas onde estão coladas imagens retiradas de revistas, livros, jornais. A propósito da exposição apresentada no Museu Rainha Sofia - Atlas Como levar o mundo às costas? 2011 - O comissário, Georges Didi-Huberman, em entrevista afirma “A História de Arte é uma arte de fantasmas, nesta exposição queremos dar voz a esses fantasmas (…) Esta exposição é de alguma maneira uma interpretação num sentido musical do trabalho de Warburg”. Foi construída uma História de Arte sem palavras, aqui projeta-se uma exposição com palavras. Na base da cultura está a memória, e na base das imagens está a memória de outras imagens.

Antes de um objeto ser pictórico é um objeto visual, a cultura contemporânea é uma cultura do visual, por vezes em prejuízo da cultura artística. Na exposição valoriza-se a dimensão do visual artístico como na arte oriental. Paulo T. Silva faz uma abordagem e uma aproximação à filosofia oriental como se pode depreender na peça Point de vue, composta por 5 elementos trabalhada com folha de ouro. O ouro é tratado pelo ponto de vista da filosofia oriental. No ocidente representa o glamour, a moda, a riqueza. Na filosofia oriental simboliza a metáfora do elogio da sombra e serve para captar a pouca luz que existe. Para dar luz e visibilidade aos objetos, originando vários pontos de vista. A peça que é um cartaz, está colocada estrategicamente junto à janela, o ouro aqui representa a captação da luz.

Outra obra exposta tem um texto sobre a cegueira. Para Paulo T. Silva interessa-lhe a relação do espectador com a obra, com a sua experiência e a possibilidade da sua participação. Ou seja, o espectador, a pessoa que está a olhar ter espaço para criar as suas imagens. “os espectadores vêem, sentem e compreendem alguma coisa à medida que compõe o seu próprio poema, como o fazem, à sua maneira, atores ou dramaturgos, diretores, dançarinos ou performers.” (Jacques Rancière, in: O espectador emancipado). Uma imagem que cria imagens. Tem a ver com a experiência pessoal de cada um para criar uma interação com a própria obra, com o objeto, neste caso com as publicações. “Hoje tornou-se banal evocar o conceito duma cultura da imagem, mas a verdade é que esta afirmação traduz a sensação que todos temos de viver num mundo onde as imagens estão não só a proliferar, mas a tornarem-se crescentemente variadas e intermutáveis. Hoje os filmes são vistos na televisão tal como há já algum tempo as pinturas são conhecidas através de reproduções fotográficas. Os cruzamentos, interações e transferências entre imagens têm-se tornado cada vez mais complexos, e parece-me que nenhuma cada categoria de imagem pode ser estudada isoladamente, isto é, sem ter em conta todas as outras.” (Jacques Aumont, in: A Imagem). Numa época de paradigma visual, onde ela própria é marcada pelo desrespeito pelas fronteiras tradicionais, onde tudo se cruza com tudo, onde tudo se metamorfoseia em tudo, continuar a estudar as coisas em fronteiras pré-definidas é não compreender a época em que vivemos, os objetos não são só objetos em si mesmos, são objetos que existem num tempo determinado.

Para o artista a presença neste Laboratório de inúmeras gavetas vem ao encontro da simbologia de guardar. As gavetas são um lugar onde os poetas e os artistas resguardam os seus desenhos os seus textos. “Com o tema das gavetas, dos cofres, das fechaduras e dos armários, vamos retomar contato com a insondável reserva dos devaneios da intimidade. O armário e suas prateleiras, a escrivaninha e suas gavetas, o cofre e seu fundo falso são verdadeiros órgãos da vida psicológica secreta. Sem esses "objectos" e alguns outros igualmente valorizados, nossa vida íntima não teria modelo de intimidade. São objetos mistos, objetos-sujeitos. Têm, como nós, para nós, por nós, uma intimidade. Haverá um único sonhador de palavras que não ressoe à palavra?” (Gaston Bachelard, in: A Poética do Espaço).  Está guardado numa das gavetas da exposição o livro Lex Icon da Salette Tavares, onde se pode ler “Não não os poemas não são gavetas mas sim sim as gavetas são poemas.”

Paulo T. Silva Interessa-se pela multiplicidade na relação com o outro e com o anonimato, nas gavetas da exposição estão presentes muitos seres: António Ramos Rosa, Carlos de Oliveira, Jorge de Sena, entre outros. Cativa-o a relação que eles tiveram com o ser e com a paisagem. Encontramos conflitos com a arte e por vezes apropriações da arte para a tornar noutra arte, a contaminação, a multiplicação constante e infinita da arte é o seu encanto a sua força.

“O mundo encontra-se, sem dúvida, em processo de musealização e todos nós desempenhamos nele o nosso papel. A memória total parece ser o objetivo. Será isto então o sonho de um arquivista levado ao extremo? Ou existirá talvez alguma outra coisa em jogo neste desejo de trazer todos estes diversos passados para o presente? Algo que seja específico da estruturação da memória e temporalidade atualmente e que não tenha sido vivido da mesma forma em épocas passadas?”. (Andreas Huyssen, in: Políticas de Memória no Nosso Tempo).

 

Sofia Marçal

Exposição de Arte e Ciência