Ponto sem Retorno

Exposição do artista plástico Jorge Camões

Quando: 
10 de Dezembro de 2020 a 3 de Janeiro de 2021
Onde: 

Sala Azul | Museu Nacional de História Natural e da Ciência

Entre o material e imaterial habita uma alma errante

A Exposição Ponto sem Retorno de Jorge Camões remete-nos para um Universo imenso que vai da Terra ao Céu, passando pelo mar. Se pensarmos noutra forma de expressão artística, como a poesia, compreendemos melhor a exposição pois há uma cadência expressa no jogo de luz e sombra entre as esculturas, na escolha ponderada das matérias, no espírito do lugar que se invoca.

Na sua obra, há um diálogo permanente entre o que o artista faz e o que pensa, onde a execução e a reflexão não são separáveis. As seis esculturas remetem-nos para os ninhos, abrigos, casas, para o refúgio. “O ninho, como toda a imagem de descanso, de tranquilidade, associa-se imediatamente à imagem da casa simples.” (Gaston Bachelard, in: A Poética do Espaço). Neste sentido bachelardiano, três das obras em exposição contêm casas de madeira talhadas a partir de um tronco de árvore: uma está suspensa na parede, num impulso ascendente, como se flutuasse na direcção do céu. As outras duas casas, instaladas no chão, são construídas na mesma linha pictórica e remetem-nos para o nomadismo. Citando Jorge Camões, “temos também situações de abrigo e de recato, de espaço de vida que propicia vida.” Para captar a percepção que está nas próprias coisas, na sua natureza sensível e perceptível destas peças escultóricas, deixamo-nos também confluir nas palavras do artista.

Referindo-se a outra obra de parede, Jorge Camões explica-nos, “nesta escultura vemos um ninho fechado virado ao contrário, não sendo um ninho é uma forma que contém. É um contentor, são sempre contentores.” Nas sombras da parede, onde o contentor se transforma em casulo e o ninho deixa de ser ninho, desenham-se redes que nos remetem para a presença/ausência dos espaços habitados. 

Segundo a escultora Margarida Alves, a obra do Jorge Camões tem a ver com os ninhos, com os abrigos, mas também se aproxima da rede do pescador e do nomadismo marítimo, da casa barco onde deambula corpo e espírito. 

Estes trabalhos escultóricos inserem-se dentro de uma representação metafórica, simbólica, o que nos leva por oposição para uma outra, ou seja, a da representação enquanto conotação, enquanto poética, enquanto linguagem figurada. “Ciência, arte e filosofia agora cresçam juntas dentro de mim a tal ponto que certamente chegará o dia em que darei à luz centauros.” (Friedrich Nietzsche in: A ilusão e a verdade da Arte). 

As obras estão dispostas pela sala visualmente, imaginativamente, corporalmente, temporalmente. Como nos diz Jorge Camões, “a piroga tem a ver com a errância. Não basta a casa, é preciso sair, é preciso o mundo, são precisos a casa e o mundo. É preciso a viagem.” 

As esculturas são construídas em cobre, madeira e bronze. Cobre é a rede, madeira a casa e bronze a piroga. Citando o artista, “a piroga tem uma particularidade, se olharmos com atenção, vemos nós, este bronze é fundido no vazio que ficou de uma vara de vime, (…) ou seja, madeira passada a bronze.” Relembrando Eduardo Lourenço (Expresso, 2 de Julho de 2017, entrevista a António Pedro Ferreira), “a essência da arte é a mimesis. Estamos cercados de objetos e tentamos perceber de que é que eles nos falam. Com exceção da música, as artes são imitativas e nasceram de uma cópia da própria natureza.” Não abandonando a mimesis, a obra de Jorge Camões expande-se para além da cópia pois desencadeia o sentido de convergência do ser humano que opera na natureza, mas que é, sobretudo, natureza. 

Retomando o título da exposição, Ponto sem Retorno, o artista salienta a relação entre a humanidade e a Terra, onde o impulso positivista da técnica despoleta a emergência do Antropoceno. Contudo, a exposição mostra-nos um sentido de habitar, talvez no passado, em resquícios do presente, ou ainda num futuro próximo, onde o ser humano se reconhece empaticamente nas múltiplas formas de vida que permeiam o mundo. 

 

Sofia Marçal, Dezembro 2020

 

Inuaguração dia 9 de dezembro, às 17h00

 

 

Exposição de Arte e Ciência