Só estudo análise clínica depois de fazermos amor

Exposição de cerâmica do artista Thomas Mendonça 

Quando: 
3 de Setembro de 2021 a 3 de Outubro de 2021
Onde: 

Laboratório de Química Analítica | Museu Nacional de História Natural e da Ciência 

Branco não é só um quadro do Malevitch

A exposição Só estudo análise clínica depois de fazermos amor de cerâmica do artista plástico Thomas Mendonça desvenda-nos a essência do artista enquanto criador ao dar-nos a conhecer o que lhe vai na alma.  Citando o artista, “«só estudo análise clínica depois de fazermos amor.», tipicamente adolescente - só me concentro depois de ser feliz - é o que me inspira esta frase que me chegou em segunda mão, relatada na terceira pessoa do singular. Identifico-me muito com esta afirmação. Não porque perdi a adolescência a estudar, nunca estudei muito - muito menos análise clínica – mas talvez porque queira agora passar a vida adulta a fazer amor. Já corri demasiado. Já estive em vários sítios ao mesmo tempo, cansei-me horrores e quase morri, então retomei onde me tinha esquecido de olhar para mim. Com a chegada da minha segunda adolescência, surgiu a leve e doce irresponsabilidade que nunca me permiti viver durante a primeira.”

Os trabalhos expostos vêm na continuação da exposição Poríferos Preciosos que Thomas Mendonça realizou no museu em 2017. É constante e coerente o seu percurso artístico e incessante o seu apreço pela temática ambientalista. O artista recria as formas da natureza marinha, poríferos, corais, plantas, fungos. Interessa-lhe a repetição do elemento, produzi-lo muitas vezes com todos os detalhes, inspirando-se directamente na Natureza. “Aqui, a natureza imagina e a natureza é sábia. Bastará olhar um álbum de amonites para reconhecer que, desde a era secundária, os moluscos construíam sua concha seguindo lições de geometria transcendente. (…) Os moluscos, como os fósseis, são tentativas iguais da Natureza em preparar as formas das diferentes partes do corpo humano; são pedaços de homem, pedaços de mulher.” [1]

Nove cerâmicas brancas colocadas estrategicamente sobre as bancadas brancas do Laboratório de Química Analítica, também branco. Vivenciamos o não contraste e a experiência do branco, como nos diz Hélio Osticica, sobre a sua obra Cosmococa “Branco não é só um quadro do Malevitch. O branco com branco é um resultado de invenção, pelo qual todos têm que passar, não digo que todos tenham que pintar um quadro branco com branco, mas todos têm que passar por um estado de espírito, que eu chamo branco com branco, um estado em que sejam negados todo o mundo da arte passada, todas as premissas passadas e você e entra num estado de invenção.”[2]

O artista materializou pedaços da sua vida ao criar estes esculturas, onde o espaço expositivo o Laboratório de Química Analítica é preenchido com traços da memória desenhados a partir de desejos, citando Thomas Mendonça, “Mudei de casa, apaixonei-me como nunca e trabalhei a um ritmo indiscutivelmente mais humano. Se estas cerâmicas parecem o centro, na verdade elas são apenas um pretexto, ou aquilo que fui fazendo entre as linhas do resto que é a minha vida. Algumas são bastante totémicas, serão certamente sagradas. As que parecem urnas funerárias, provavelmente contêm as cinzas dos fantasmas que um dia entreguei às chamas.”

As cerâmicas enquanto linguagem poética, na procura da sua materialização, encontraram o museu para se projectarem. “O homem apodera-se da natureza transformando-a. O trabalho é a transformação da natureza. O homem também sonha com um trabalho mágico que transforme a natureza, sonha com a capacidade de mudar os objetos e dar-lhes nova forma por meios mágicos. Trata-se de um equivalente na imaginação àquilo que o trabalho significa na realidade. O homem é, por princípio, um mágico.”[3] As formas de mediação dos objectos e do seu simbolismo sem distanciamento e com encanto, numa espécie de erotismo entre o observador e as obras, é onde o trabalho de Thomas Mendonça se desenvolve.

 

Sofia Marçal

 

 

1 - Sem título. Faiança, 35x10x08cm, 2020

 

6 - Sem título. Faiança, 40x13x13cm, 2020

 

2 - Sem título. Faiança, 66x13x13cm (2020)

 

7 - Sem título. Faiança, 28x19x19cm, 2020

 

3 - Sem título.  Faiança, 47x15x11cm (2020)

 

8 - Sem título. Faiança, 57x17x14cm, 2018

 

4 - Sem título. Faiança, 36x10x10cm (2020)

 

9 - Sem título. Faiança, 36x22x09cm, 2020

 

5 - Sem título. Faiança, 65x19x17cm, 2020

 

 

Thomas Mendonça (1991, França), artista plástico licenciado pela Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, trabalha e reside em Lisboa. Das exposições em que participou, salientam-se "Poríferos Preciosos" no Museu Geológico de Lisboa e Museu Nacional de História Natural e da Ciência, “Género na Arte: Corpo, sexualidade, identidade, resistência" no Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, e "Species Novae" na Galeria FOCO em Lisboa. Dos seus projectos curatoriais destacam-se as exposições "O Vírus" e "Sem Receio De Criar O Caos" para as 22ª e 23ª edições do Festival Internacional de Cinema Queer Lisboa, e "PAU DURO CORAÇÃO MOLE” ambas na Galeria FOCO. Os seus principais interesses distribuem-se entre melodramas sentimentais, a cultura pós-pop e a beleza da singularidade icónica no geral.

Thomas Mendonça Tel.: (+351) 914 810 537 mendoncathomas@hotmail.com www.thomasmendonca.weebly.com




[1] Gaston Bachelard, in: A Poética do Espaço, p.266,  272.

[2] Catálogo da exposição no CCB. Hélio Osticica, Museu é o Mundo.

[3] Ernst Fischer, In: A Necessidade da Arte. p. 21.

 

Inauguração da exposição dia 2 de setembro das 17h00 às 20h00.

Exposição de Arte e Ciência