Coleção Bernardino António Gomes - Flora fóssil do Terreno Carbónico Português

Em 1865, Bernardino António Gomes (1806-1877), médico e cientista conceituado, publicou o estudo e identificação dos fósseis desta coleção de referência

© ULisboa/MUHNAC, José Vicente. Polymorphopteris (Pecopteris) polymorpha (BRONGNIART 1834) WAGNER 1959 e Annularia sp

O início do período Carbónico (ou Carbonífero) deu-se há 359 milhões de anos (Ma) e foi marcado por uma subida gradual do nível do mar que permitiu o estabelecimento de pequenos mares interiores e, nas regiões litorais, a formação de zonas alagadiças pantanosas e de ecossistemas semelhantes a mangais. Também se formaram lagunas de água doce.

Os continentes convergiam e iriam dar origem ao supercontinente Pangea, cerca de 100 Ma depois. As massas continentais do hemisfério Sul estavam, já, reunidas num continente (Gondwana). Na parte Norte desse continente, em região tropical, situavam-se terrenos que estão incluídos, nos territórios onde hoje se encontram Portugal, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e vários países da Europa Central e Oriental. Os pântanos e lagunas, formados sob clima tropical e subtropical, ofereceram as condições para o desenvolvimento de exuberantes florestas, onde predominava uma vegetação constituída, principalmente, por Pteridospérmicas e Calamitáceas.

As Pteridospérmicas, extintas, eram plantas vasculares, parecidas com fetos, mas com sementes e porte arbóreo (podiam atingir 30 a 50m), cujos troncos fósseis são conhecidos sob a designação de Lepidodendron e Sigillaria. As folhagens destas plantas foram também consideradas géneros fósseis que com frequência encontramos nas coleções dos museus:  Neuropteris, Alethopteris, Sphenopteris, Ciclopteris, Diplothmema. As Pteridospérmicas estarão na origem das Pteridófitas, os verdadeiros fetos, com esporos, que também se encontram no registo fóssil do Carbónico como, por exemplo, Acitheca, Polymorphopteris e Pecopteris.

As Calamitáceas, também extintas, terão dado lugar às equissetíneas cujo representante atual é o Equisetum (erva-cavalinha), herbácea. Mas, ao contrário da espécie hoje existente, as Calamites podiam crescer até 20 a 30m de altura. Reproduziam-se por esporos. Os fósseis da sua folhagem também se encontram representados nas coleções dos museus e nos manuais escolares e têm sido considerados outros tantos géneros, caso de Annularia e Asterophyllites.

As Gimnospérmicas já estão presentes nas formações do Carbónico. Cordaites (sementes em forma de coração) e Dicranophyllum são géneros extintos, semelhantes a coníferas ou, mesmo, coníferas primitivas.

Esta densa vegetação cobriu áreas extensas do globo, fixou o CO2 (dióxido de carbono) existente na atmosfera e, ao acumular-se nos pântanos e lagunas, por ação dos processos geológicos verificados ao longo do tempo, veio a dar origem aos maiores depósitos de carvão existentes que alimentaram, como combustível, a Revolução Industrial. Por isso, este período da história da Terra que se iniciou há 359 Ma e terminou há 299 Ma, é designado Carbónico ou Carbonífero. Então, o teor de oxigénio na atmosfera era elevado. Estima-se que terá atingido 35% (na atualidade é de 21%) o que terá originado gigantismo nas formas de insetos e de outros artrópodes terrestres. É o caso do fóssil Meganeura, semelhante na forma a uma Libélula, mas que chegava a atingir 70 cm de envergadura de asa.

Em Portugal, estas formações geológicas estão representadas em vários pequenos afloramentos constituídos por conglomerados, arenitos e xistos. Nestes últimos são abundantes os fósseis vegetais característicos daquele período geológico, quando em ambiente tropical, com destaque para as jazidas clássicas de Buçaco (Luso), Moinho da Ordem-Santa Susana (Alcácer do Sal) e, sobretudo, pela riqueza fossilífera, São Pedro da Cova (Gondomar) e Valongo.

Essa riqueza fossilífera levou a que no séc. XIX fosse organizada uma coleção de referência constituída por fósseis provenientes daquelas jazidas. Francisco Pereira da Costa (1809-1889), lente de Mineralogia e Geologia na Escola Politécnica de Lisboa e Diretor, com Carlos Ribeiro (1813-1882), da Comissão Geológica do Reino, solicitou a Bernardino António Gomes (1806-1877), médico e cientista conceituado também dedicado à botânica, o estudo e identificação das espécies presentes na coleção. Desse estudo resultou, em 1865, a publicação pela Comissão Geológica da Memória intitulada Vegetaes Fósseis. 1º opusculo - Flora fóssil do Terreno Carbonífero que constitui a “primeira monografia em que se faz um estudo de conjunto da flora fóssil dos terrenos carboníferos de Portugal”.

Mais tarde a coleção é transferida para o Museu Mineralógico e Geológico, secção de Geologia do Museu Nacional, entretanto instalado na Escola Politécnica. Aí, em 1941-42, Carlos Teixeira, geólogo eminente, à época Naturalista no Museu da Universidade do Porto, estuda a coleção e publica uma revisão no Boletim do Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Em 1949, Carlos Teixeira, já Professor na Universidade de Lisboa, atualiza as classificações e orienta o naturalista J. Brak-Lamy na compilação de um catálogo dos exemplares do Museu.

A coleção volta a ser revista em 1983 pelos professores R.H. Wagner e M. J.  Lemos de Sousa, revisão que dá origem à publicação do artigo The Carboníferous megafloras of Portugal. - A revision of identifications and discussion of Stratigraphic ages no nº 29 das Memórias dos Serviços Geológicos de Portugal, editada por M J Lemos de Sousa e J T Oliveira, sob o tema The Carboníferous of Portugal.

Compõem a coleção 186 exemplares. Entre os 17 géneros representados, a maioria por mais do que uma espécie, estão aqueles anteriormente mencionados neste texto.

Devido à localização no edifício em 18 de março de 1978, a “Colecção Bernardino António Gomes” é das poucas coleções geológicas do Museu que não sofreu qualquer dano provocado pelo incêndio. Não foram afetados nem os exemplares, nem a documentação associada. Um caso de sobrevivência com 160 anos de história.
 

English version

The "Bernardino António Gomes Collection - Fossil Flora from the Portuguese Carboniferous Terrain"

The beginning of the Carbonic (or Carboniferous) period occurred 359 million years ago (Ma) and was marked by a gradual rise in the sea level that allowed the establishment of small inland seas and, in the coastal regions, the formation of marshy wetlands and mangrove-like ecosystems. Freshwater lagoons also formed.

The continents converged, giving rise to the supercontinent Pangea, about 100 million years later. The continental masses of the Southern Hemisphere were already united in one continent (Gondwana). In the northern part of that continent, in a tropical region, there were lands which are included in the territories where Portugal, the United States, Great Britain and several countries of Central and Eastern Europe are today. The swamps and lagoons, formed under tropical and subtropical climates, provided the conditions for the development of exuberant forests, where vegetation mainly constituted of Pteridosperms and Calamitaceae predominated.

The extinct Pteridosperms were vascular plants, similar to ferns, but with seeds and arboreal growth (they could reach 30 to 50m), whose fossil trunks are known as Lepidodendron and Sigillaria. The leaves of these plants were also considered fossil genera that we often find in museum collections: Neuropteris, Alethopteris, Sphenopteris, Ciclopteris, Diplothmema. The Pteridosperms are the origin of the Pteridophytes, the true ferns, with spores, which are also found in the fossil record of the Carboniferous, such as Acitheca, Polymorphopteris and Pecopteris.

The Calamitaceae, also extinct, will have given place to the Echissetinea, whose current representative is the herbaceous Equisetum (erva-cavalinha). But, unlike the species that exist today, the Calamites could grow up to 20 to 30m tall. They reproduced by spores. The fossils of its foliage are also represented in museum collections and school textbooks and have been considered as many other genera, like Annularia and Asterophyllites.

The Gymnosperms are already present in the Carboniferous formations. Cordaites (heart-shaped seeds) and Dicranophyllum are extinct genera, similar to conifers or even primitive conifers.

This dense vegetation covered extensive areas of the globe, fixed the CO2 (carbon dioxide) in the atmosphere and, by accumulating in marshes and lagoons through geological processes over time, gave rise to the largest coal deposits in existence that fuelled the Industrial Revolution. For this reason, this period of Earth's history, which began 359 million years ago and ended 299 million years ago, is called the Carboniferous. At that time, the oxygen content in the atmosphere was high. It's estimated to have reached 35% (nowadays it's 21%) which would have originated gigantism in the forms of insects and other terrestrial arthropods. This is the case of the fossil Meganeura, similar in shape to a dragonfly, but reaching up to 70 cm wingspan.

In Portugal, these geological formations are represented in several small outcrops made up of conglomerates, sandstones, and shales. In the latter are abundant plant fossils characteristic of that geological period, when in a tropical environment, with emphasis on the classic deposits of Buçaco (Luso), Moinho da Ordem-Santa Susana (Alcácer do Sal) and, above all due to fossiliferous richness, São Pedro da Cova (Gondomar) and Valongo.

This fossiliferous richness led to the organisation in the 19th century of a reference collection made up of fossils from these deposits. Francisco Pereira da Costa (1809-1889), professor of Mineralogy and Geology at the Lisbon Polytechnic School and Director, along with Carlos Ribeiro (1813-1882), of the Kingdom's Geological Commission, asked Bernardino António Gomes (1806-1877), a well-known physician and scientist also dedicated to botany, to study and identify the species present in the collection. This study resulted in 1865 in the publication by the Geological Commission of the Memoir entitled Vegetaes Fósseis. 1º opusculo - Flora fóssil do Terreno Carbonífero. This was the "first monograph in which an overall study was made of the fossil flora of the Carboniferous terrain in Portugal".

Later the collection was transferred to the Museu Mineralógico e Geológico, Geology section of the Museu Nacional, which had been set up at the Escola Politécnica. There, in 1941-42, Carlos Teixeira, eminent geologist, at the time Naturalist at the Museu da Universidade do Porto, studied the collection and published a review in the Boletim do Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. In 1949, Carlos Teixeira, already a Professor at the University of Lisbon, updated the classifications and supervised the naturalist J. Brak-Lamy in the compilation of a catalogue of the specimens in the Museum.

The collection was revised again in 1983 by Professors R.H. Wagner and M. J. Lemos de Sousa, a revision which gave rise to the publication of the article The Carboniferous megafloras of Portugal. - A revision of identifications and discussion of Stratigraphic ages in nº 29 of the Memórias dos Serviços Geológicos de Portugal, edited by M J Lemos de Sousa and J T Oliveira, under the theme The Carboniferous of Portugal.

The collection is composed by 186 specimens. Among the 17 genera represented, most by more than one species, are those mentioned earlier in this text.

Due to its location in the building on 18 March 1978, the "Bernardino António Gomes Collection" is one of the few geological collections of the Museum which did not suffer any damage caused by the fire. Neither the specimens nor the associated documentation were affected. A case of survival with 160 years of history.