Gorgulhos e Carunchos

Objeto do mês de setembro 2020

CARVALHO, Eduardo Luna de - Guia prático para a identificação de alguns insectos de armazéns e produtos armazenados. 3 partes. Lisboa: Instituto de Investigação Científica Tropical, 1979-1984

GORGULHOS E CARUNCHOS*

O Guia prático para a identificação de alguns insetos de armazéns e produtos armazenados reúne de uma forma sistemática as características das pragas de insetos e ácaros que se podem encontrar em locais e meios de armazenagem e transporte (porões de navios e vagões de comboios, celeiros, sacas, alfândegas, instalações industriais).

Os produtos como os cereais e farinhas, leguminosas, frutos secos, especiarias, cacau, café, são geralmente os mais afetados. São referidas também pragas noutro tipo de locais, como bibliotecas, arquivos e casas de habitação. A obra inclui detalhados 317 desenhos das inúmeras espécies descritas, todos do autor, um glossário que compila terminologia relacionada com insetos, uma bibliografia temática, bem como listagens exaustivas das principais espécies identificadas, os produtos e os respetivos países onde foram encontrados.

O autor, Eduardo Augusto Luna de Carvalho (1921-2006), entomologista, foi dedicado naturalista no Museu de Dundo (capital da atual província angolana de Lunda Norte) associado ao Laboratório de Biologia, onde coadjuvou o diretor António Barros Machado. Desenvolveu a sua carreira profissional em centros de investigação do Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT), nos domínios da Fitossanidade e da Zoologia.

A identificação morfológica e bio ecológica das principais espécies de insetos, ácaros, fungos e roedores que atacam os produtos agrícolas secos, facilita o levantamento dos complexos problemas locais de fitossanidade do armazenamento, permitindo o reconhecimento de gravosas consequências económicas. Estes fatores aliados à promoção, desenvolvimento e estudo de técnicas experimentais de armazenamento e à introdução de técnicas de tratamento face aquelas espécies, concorrem para o alcançar de objetivos e metas tão fundamentais como a preservação da biodiversidade, a sustentabilidade ambiental, a garantia de segurança alimentar e uma forte contribuição para a erradicação da fome no Mundo.

* Nomes comuns de alguns insetos que atacam os produtos armazenados.

English version

 

Informações adicionais sobre o autor

Ao longo de quase 60 anos (1947-2006), publicou e/ou colaborou na elaboração de inúmeros trabalhos sobre a biodiversidade dos insetos coleópteros, fundamentalmente relativos a Angola (região da Lunda principalmente) e Moçambique, mas também dedicados à Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Ghana, Quénia, Etiópia, Nova Guiné, Espanha e Portugal. Alguns deles sobre exemplares de coleções do Museu de Dundo e do IICT (existe mesmo uma coleção Luna de Carvalho), Sociedade Portuguesa de Entomologia (da qual foi sócio fundador), coleções recolhidas por outros investigadores, coleções pertencentes a universidades (Cornell, Coimbra) e importantes achegas para a determinação de ordens (ex. Museu Bocage, 1998). 

A sua especialidade foram os estudos sobre os Strepsiptera, da fam. Scarabaeidae e da subfam. Paussidae, como exemplo os besouros. identificou aproximadamente 2 genera, 71 espécies.

Em 1989, apesar de relacionado com a ornitologia, e desde logo fora da sua habitual esfera de estudo, numa edição da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais, publica A anónima descoberta dos doudos do arquipélago de Mascarenhas por navegadores portugueses (Avis columbiformes Raphidae).

O Boletim n.º 140 da Sociedade Portuguesa de Entomologia (1992), divulgou um interessante conjunto de retratos desenhados pelo autor e breves notícias biográficas de um conjunto de zoólogos e entomologistas portugueses e estrangeiros, desde 1949 à década de 90, integrados numa exposição apresentada em Lisboa, por ocasião do 5.º Congresso Ibérico de Entomologia, prestando-lhes assim homenagem. VER AQUI

Apresentou a sua tese à Universidade de Marselha com o título Essai Monographique des Coléoptères Protopaussines et Paussines. Contenant des descriptions et iconographie des taxa actuelles et fossiles avec des clefs dichotomiques de toutes les espèces, que lhe outorga em 1990 o grau de Études Doctorales. Este trabalho foi igualmente publicado pelo IICT em finais da década de 80.

Foram-lhe dedicadas, por outros investigadores, algumas espécies de insectos, bem como foi atribuído o seu nome a um estabelecimento de ensino na freguesia de Algueirão-Mem Martins (Sintra).

 

A investigação em fitossanidade do armazenamento e o IICT

Só a partir da década de 30 do séc. XX podemos encontrar os primeiros indícios de estudos sobre a conservação de produtos armazenados. É o caso dos trabalhos incidindo sobre os trigos, bem como os percursores estudos de entomologia aplicados à agricultura e florestas. Na década de 40 multiplicam-se já os estudos de Entomologia dos produtos armazenados associados ao Instituto Superior de Agronomia, Estação Agronómica Nacional (relatórios finais de engenharia agronómica) e Centro de Zoologia da Junta das Missões Geográficas e de Investigações Coloniais.

Desde inícios da década de 50, primeiramente no Instituto Superior de Agronomia, de seguida em instalações improvisadas no Jardim do Ultramar em Belém, mais tarde em edifícios próprios (Santos, Junqueira), foram desenvolvidas de uma forma inovadora, no panorama dos estudos entomológicos, agrícolas e florestais, atividades no âmbito da fitossanidade. A princípio mais dedicadas ao reconhecimento dos prejuízos provocados por algumas espécies de insetos nos produtos recebidos e armazenados durante largos períodos, relativamente às colónias portuguesas em África, por exemplo no amendoim (mancarra) na Guiné, mas tendo como enfoques fundamentais, mas interdependentes, áreas como a Biologia (Entomologia, Micologia), Armazenamento, Bioquímica e Meios de Luta.

Já numa fase mais recente, desenvolveram-se estudos integrados em projetos de investigação de redes internacionais de universidades e empresas, no âmbito da proteção integrada dos produtos secos duráveis, como o arroz por exemplo (Consulte-se), desde a colheita à fase de consumo. Estudaram-se igualmente meios de proteção alternativos à luta química, menos nocivos para o consumidor e para o ambiente e a investigação estendeu-se igualmente aos métodos de prevenção, diagnóstico, monitorização e profilaxia, relacionados com as diferentes fases: transporte, transformação e armazenamento dos produtos. Foi importante o estabelecimento de pontes entre perspetivas disciplinares, como por exemplo a identificação de meios de armazenamento tradicionais do ponto de vista etnográfico, suas potencialidades e desvantagens face a condições de armazenamento mais eficazes e sustentáveis. Encarou-se de uma forma mais eficaz, a problemática do armazenamento, com reflexos e abordagens diversas ao nível do agricultor, comércio, indústria e consumo. 


Contextualização histórica 

De destacar, entre outros, a ação de vários organismos, desde a Comissão de Estudos Acerca da Defesa Fitossanitária dos Produtos Agrícolas e Florestais de Origem Ultramarina (1952) e da Brigada de Estudos da Defesa Fitossanitária dos Produtos Ultramarinos (1954) até ao Centro de Estudos de Fitossanidade do Armazenamento (1983) e ao Centro de Proteção Integrada dos Produtos Armazenados (2009).


Algumas imagens com história

Conjunto de fotografias, de autoria não identificada [195?], captadas durante os trabalhos das brigadas e centros de investigação em fitossanidade da JIU/IICT, em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, S. Tomé e Príncipe, Senegal, Gâmbia, Nigéria, Índia, Zimbabwe e Portugal. Incluem tipologias e locais de armazenamento tradicionais e industriais, laboratórios de investigação e laboratórios estrangeiros visitados, instrumentos de inspeção e ensaio.
Disponíveis aqui
 

Outras fontes consultadas

CARVALHO, Maria Otília; MAGRO, Ana; BARBOSA, António; BARROS, Graça - «O Centro de Protecção Integrada dos Produtos Armazenados 1951-2010: seis décadas de existência, história e actividade». Viagens e missões científicas nos trópicos: 1883-2010. Lisboa: IICT, 2010, p. 113-117. Ver aqui

«Centro de Estudos da Defesa Fitossanitária dos Produtos Ultramarinos». Da Comissão de Cartographia (1883) ao Instituto de Investigação Científica Tropical (1983). Lisboa: IICT, 1983, p. 353-369. Ver aqui