Carta aberta aos visitantes

A Diretora do MUHNAC, Doutora Marta Lourenço, escreve carta aberta aos visitantes do Museu

Nos últimos dois meses, as nossas vidas sofreram uma reviravolta muito considerável. Aquilo que tomávamos como certo, tão certo que nunca pensávamos que estivesse em causa – ir ao restaurante, a um concerto, a um museu, visitar amigos e família ou, simplesmente, sair à rua ou ir trabalhar – deixou de ser possível. 

Em linha com a suspensão de atividades na Universidade de Lisboa, o Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC) encerrou a 11 de Março e os Jardins que estão sob nossa gestão – Jardim Botânico de Lisboa, ao Príncipe Real, e Jardim Botânico Tropical, em Belém – encerraram a 23 de Março. Durante estes dois meses, e à exceção de um reduzido número de funcionários de manutenção, conservação de coleções, segurança e limpeza, estivemos em casa. Mas não estivemos parados. Continuámos ‘vivos’ através das redes sociais. Também nos reorganizámos internamente, avançámos no trabalho de projetos que estavam há muito pendentes, trabalhámos nas exposições que vamos inaugurar, na acessibilidade digital das nossas coleções e apoiámos a Universidade em várias iniciativas solidárias.

Mas um museu ou jardim sem pessoas é um contra-senso, como uma música sem som ou um poema sem palavras. Não faz sentido. Assim, ficámos radiantes por poder reabrir os Jardins no início de Maio e hoje, Dia Internacional dos Museus, reabrir finalmente o MUHNAC, juntamente com tantos museus portugueses.

O Museu que reabrimos hoje não é o mesmo que encerrámos há dois meses. Há importantes limitações no acesso a exposições e coleções e medidas preventivas sanitárias de carácter extraordinário, com vista à segurança de todos os que aqui trabalham e nos visitam. Em contrapartida, temos uma magnífica exposição temporária nova – Grupo do Risco – e vamos muito em breve inaugurar mais duas novas exposições no quadro de Lisboa Capital Verde Europeia 2020, com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa. Vamos ter também muitas atividades novas no Museu e Jardins para grupos reduzidos. Vamos ter ATLs no verão. E continuamos muito ativos nas redes sociais – convido-vos a seguirem-nos no Facebook, Twitter, Instagram e Youtube.

O impacto epidemiológico, económico e social desta crise será por muitos meses e anos estudado por especialistas, em Portugal e no mundo. Sabemos que estes dois meses trouxeram muito sofrimento, desemprego, pobreza, luto e saudade a tantas famílias portuguesas. Aprendemos também com esta crise que precisamos uns dos outros. Precisamos de saber como estão os que nos são próximos e distantes e permanecer juntos como nunca. A crise deu-nos uma grande lição sobre proximidade, solidariedade e generosidade.

E, neste aspeto, os museus são essenciais. Mais do que a arte, a ciência, ou a história que apresentam nas suas exposições e coleções, são os valores da permanência, continuidade e de identidade partilhada com o outro próximo e distante, que permite aos museus oferecerem um forte sentido de proximidade, unidade e esperança quando tudo à nossa volta parece desmoronar-se e escapar ao nosso controlo. Mais do que nunca, os museus são as nossas âncoras.

Visite-nos a partir de hoje. Estamos à sua espera.

Lisboa, 18 de Maio de 2020

 

Marta C. Lourenço, Universidade de Lisboa
Diretora do Museu Nacional de História Natural e da Ciência