Identificadas novas espécies de serpentes em Angola

Três novas espécies de Serpentes das Casas Africanas

Boaedon branchi - Provincia do Cuando Cubango. Foto de William R. Branch

Luís Ceríaco (Curador Chefe do Museu de História Natural da Universidade do Porto e Curador externo da coleção de Herpetologia do Museu Nacional de História Natural e da Ciência / Universidade de Lisboa) e Mariana Marques (Estudante de PhD CIBIO, Universidade do Porto e Curadora assistente da coleção de Herpetologia do Museu Nacional de História Natural e da Ciência / Universidade de Lisboa) integram a equipa de investigadores que tem vindo a estudar um género de serpentes africanas, Boaedon, também designadas como Serpentes das Casas Africanas ou Serpentes castanhas.

Esta espécie, uma das mais abundantes do continente africano, bastante comum de serem encontradas em casas, daí o seu nome, são animais que podem atingir grandes dimensões, mas são serpentes inofensivas para o ser humano, alimentando-se maioritariamente de pequenos roedores e outros répteis como as osgas. Têm como característica diagnosticante a presença de uma lista esbranquiçada no focinho, que passa pelos olhos.

O trabalho agora apresentado veio trazer importantes novidades para o conhecimento da herpetofauna angolana, mas também para este grupo de serpentes em particular. Antes deste estudo eram apenas conhecidas para Angola quatro espécies - Boaedon angolensisBoaedon fuliginosusBoaedon olivaceus e Boaedon variegatus. 

Agora e através da análise morfológica de exemplares recém coletados em novas expedições a Angola, bem como com recurso à revisão de exemplares históricos presentes em Museus de Historia Natural Europeus, Norte Americanos e Angolanos (dos quais se inserem alguns exemplares do MUHNAC/IICT), e com recurso a análises moleculares com o uso de marcadores moleculares (genes mitocondriais e nucleares), foi possível chegar à conclusão que afinal existem nove espécies do género Boaedon em Angola. Sendo estas a Boaedon angolensisBoaedon fuliginosusBoaedon olivaceus, Boaedon variegatus, Boaedon virgatusBoaedon mentalis (estas duas últimas -virgatus e mentalis- apenas eram conhecidas do Congo), e mais três novas adições até então desconhecidas para a ciência -  Boaedon bocagei sp. nov., Boaedon branchi sp. nov. e Boaedon fradei sp. nov.  

Boaedon bocagei - endémica da região de Luanda - foi descrita em honra de José Vicente Barbosa du Bocage, fundador dos estudos herpetológicos em Angola. Homenagem mais que merecida devido ao seu enorme contributo para o conhecimento destes grupos faunísticos em Angola;

Boaedon fradei - endémica do sudoeste de Angola, mas também parte da Zâmbia e República Democrática do Congo - foi dedicada ao zoólogo Português Fernando Frade, antigo diretor do Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT). O Fernando Frade coletou alguns dos espécimes que foram usados para a descrição da espécie;

Boaedon branchi -  endémica da província do Cuando Cubango, no sudoeste de Angola, e foi coletada durante as expedições da National Geographic ao Okavango. É dedicada ao herpetólogo Sul Africano William Branch, que faleceu em 2018, e que nos últimos anos tinha trabalhado bastante em Angola.

Alguns dos exemplares utilizados na descrição são exemplares do MUHNAC/IICT - sendo estes paratipos da espécie Boaedon fradei.

Este trabalho de investigação foi executado em estreita colaboração com o Instituto Nacional da Biodiversidade e Áreas de Conservação (INBAC), Ministério do Ambiente de Angola. Neste projeto têm participado também vários técnicos e estudantes angolanos.

 

Notícia do Jornal Público, 10 julho 2020