Ex-diretora do Jardim Botânico de Lisboa premiada

Maria Amélia Martins-Loução, bióloga, professora e divulgadora de ciência foi distinguida com o Grande Prémio Ciência Viva 2021, pela Agência Ciência Viva.

Fonte: facebook

Com um longo percurso académico e de cargos de direção, Maria Amélia Martins-Loução, é a atual Presidente da Sociedade Portuguesa de Ecologia, professora catedrática jubilada da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e investigadora do cE3c -Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Globais, da Faculdade de Ciência da Universidade de Lisboa.

Entre 2003 e 2009, foi Diretora do Jardim Botânico de Lisboa (JBL) e em simultâneo, entre 2004 e 2006, Presidente do Museu Nacional de História Natural – um dos museus que esteve na origem do MUHNAC-ULisboa. Paralelemente, entre 2006 e 2011, acumulou as funções de Vice-reitora da Universidade de Lisboa.

A Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica (Ciência Viva) anuncia agora a distinção da investigadora pelo «sua ação notável na promoção da cultura científica enquanto professora, bióloga e divulgadora na área da ecologia».

Apaixonada pela ecologia mas também pela divulgação da ciência, promoveu ao longo da sua carreira no Jardim Botânico de Lisboa importantes iniciativas e projetos como o lançamento, em 2004, do Programa de Educação Ambiental para o JBL, mas também atividades de museologia como a coordenação do Banco de Sementes do Museu entre 2003 e 2014 e o comissariado da exposição “A Aventura da Terra: um planeta em evolução”, em 2009.

Falámos com a vencedora do Grande Prémio Ciência 2021 e da importância da comunicação da ciência para a literacia científica e sensibilização dos cidadãos para as questões ambientais.

 

MUHNAC-ULisboa: Antes de mais, qual a importância de ser reconhecida com o Grande Prémio Ciência Viva 2021?

Maria Amélia Martins-Loução: Redobrada importância: primeiro para a comunicação de ciência em geral, e, em particular, para a área temática da biodiversidade. Foi a primeira vez que este prémio foi atribuído a uma bióloga que comunica na área da ecologia e biodiversidade.  Por isso é para mim um grande motivo de orgulho.

 

MUHNAC-ULisboa: Enquanto Diretora do Jardim Botânico de Lisboa fez uma forte aposta da educação ambiental. Porquê?

Maria Amélia Martins-Loução: Porque considero a educação ambiental uma das apostas chave em prol do respeito e encantamento da natureza, da biodiversidade que nos rodeia. Se lançarmos esta semente nos mais pequenos e nos seus professores, melhor a preparação das novas gerações para as mudanças sociais que são necessárias para um mundo mais sustentável. O maior respeito pela natureza, o aumento da sensibilidade sobre os pequenos atos que devem ser tomados para diminuir os impactos da atuação do Homem no ecossistema e a motivação para exercer uma cidadania mais consciente e ativa, são adquiridas com conhecimento, com o aprender a olhar e ver. E isso pode ser transmitido através de uma boa educação ambiental, como a que sempre pugnei no Jardim Botânico de Lisboa. Com esse fim, lancei o ano passado um livro infantojuvenil intitulado “Histórias num admirável mundo invisível”, onde procuro chamar a atenção para a diversidade presente no solo, utilizando uma abordagem maniqueísta onde a amizade e a camaradagem justificam a associação de microrganismos com plantas para “vencer os organismos maus” e sobreviver a situações de stress.

 

MUHNAC-ULisboa: É uma apaixonada pela comunicação de ciência. Como surgiu esse gosto? Está relacionado com o percurso que fez no Jardim Botânico de Lisboa, assim como no, à altura, Museu Nacional de História Natural? Se sim, em que medida?

Maria Amélia Martins-Loução: Nunca tinha pensado nisso. Ou seja, não sei quando surgiu o rastilho. Acho que foi antes de assumir a Direção do Jardim Botânico, para mostrar à Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) que não se podia/devia esquecer a casa mãe onde muitos de nós fomos educados e ensinados, a Politécnica. Independentemente de estarmos no Campo Grande, eu levava sempre os estudantes ao jardim e à Politécnica para complemento das minhas aulas. Já nessa altura me preocupava com o corte umbilical que tinha sido feito, ignorando as pessoas, o espaço, o jardim que tinham ficado para trás. Mas nessa altura a escrita era interna, para a newsletter da FCUL que tinha acabado de surgir. Depois, quando assumi a Direção do Jardim Botânico percebi logo que tinha de lutar para aumentar a visibilidade dos problemas que existiam. Primeiro foram as entrevistas e depois as crónicas - nessa altura esporádicas - no Público. E a tónica era sempre a questão das valências que essa casa tinha sem grande reconhecimento. Diamante em bruto que a sociedade teimava em ignorar e a Universidade a pugnar. E isso devia-se a uma falta de sensibilidade e interesse para com a área da história natural. Entreguei-me de alma e coração a essa missão. 

 

MUHNAC-ULisboa: Tem uma longa carreira na área da investigação científica e preside atualmente à Sociedade Portuguesa de Ecologia (SPECO). Qual é o papel que a comunicação de ciência pode ter na divulgação dos resultados científicos e na sensibilização da população para as questões ambientais?

Maria Amélia Martins-Loução: Eu sou bióloga de formação e professora de profissão. Para mim o conhecimento deve ser a nossa matriz de desenvolvimento, daí a necessidade de melhorar e implementar a investigação científica. Enquanto presidente da SPECO, e como já não tenho obrigações letivas ou de investigação de bancada, dedico muito tempo a melhorar a visibilidade da ecologia para a sociedade e em particular a mostrar a diferença entre ecólogo e ecologista ou ambientalista. Enquanto um ecólogo é um cientista da área da ecologia, um ecologista ou ambientalista é um ativista, por vezes sem conhecimento cabal sobre o que está a defender. Um ecólogo, pelo contrário, pode ser ecologista quando defende, por razões científicas, determinadas ações. Num período pós-pandémico, em que se sentiu a dependência do conhecimento da ciência para a resolução deste problema de saúde pública mundial, há que mostrar que cabe aos cientistas em geral dar indicações/sugestões sobre a solução. E esta pandemia não foi mais do que o resultado da promiscuidade com que o Homem trata o ambiente, quebrando barreiras e afetando os ecossistemas naturais. Essa é a sensibilização que eu procuro fazer através dos meus artigos de opinião, do Ensaio da Fundação Francisco Manuel dos Santos intitulado "Riscos Globais e Biodiversidade" e outros que pretendo redigir. Dar visibilidade aos ecólogos, promover a sua aceitação enquanto detentores de conhecimento, melhorar conteúdos sobre biodiversidade e a sua abordagem ao nível das escolas, contribuir para a literacia científica da sociedade, são missões que não abdico enquanto estiver à frente da SPECO. 

 

Por Lúcia Vinheiras Alves