MUHNAC apresenta projeto “MUSEUS E BEM-ESTAR: Receitar cultura - Prescrição social para interação com museus e jardins”

Dia 18 fevereiro, às 11h00 no canal Youtube do Museu.

 

Nem tudo na vida se trata com um comprimido, um xarope ou uma intervenção hospitalar. Nem tudo na vida passa com repouso numa cama e fechado entre quatro paredes. Pelo contrário. Ter contacto com a natureza no meio da cidade, fazer envasamentos no Jardim Botânico, limpar exemplares nas coleções do Museu, são tarefas que promovem a saúde e bem-estar e que vão passar a constar na lista da Prescrição Social dos provedores de saúde.

De acordo com um artigo no British Journal of General Practice pensa-se que cerca de 20% das visitas dos pacientes que consultam o médico de família estão relacionadas com questões sociais, o que se tem vindo a agudizar com o envelhecimento da população, com necessidades sociais e médicas várias e de mais e melhores serviços.

Para fazer face a este grave problema que afeta grande parte da população, a Prescrição Social começou a ganhar terreno em Portugal. Uma área a que o MUHNAC-ULisboa se dedica desde outubro do ano passado, ao tornar o Museu e os Jardins Botânicos parte da solução para uma série de pessoas com problemas como ansiedade, isolamento social e sintomas primários de depressão.

Raquel Barata, Coordenadora do Núcleo Educativo e de Exposições do MUHNAC-ULisboa e responsável pelo projeto, explica no que consiste exatamente a prescrição social. «A prescrição social permite ligar pessoas que necessitam de cuidados de saúde primários aos recursos de apoio existentes na comunidade, permitindo uma resposta diferenciadora e específica na procura de soluções que contribuam para melhorar a sua saúde e bem-estar».

E neste sentido, os Museus e os Jardins Botânicos podem ser ativos essenciais porque «são recursos da comunidade que podem ser preparados para integrar pessoas em intervenções de prescrição social, maximizando as respostas às suas necessidades sociais, emocionais e práticas», esclarece.

Com o objetivo de preparar Museus e Jardins Botânicos para desenvolverem intervenções de prescrição social que incluam a interação com o seu património e coleções, o MUHNAC-ULisboa lidera um consórcio que envolve a Unidade de Saúde Familiar (USF) da Baixa e a USF Almirante Reis, o Museu de São Roque e a Santa Casa da Misericórdia, a Universidade de Lisboa, a Universidade Nova de Lisboa e a Universidade de Edimburgo, na Escócia, que já há alguns anos iniciou programas de prescrição social nos seus Museus.

Apesar desta área abranger várias abordagens ao nível da saúde e bem-estar através da prescrição de atividades mais conhecidas, como é o caso do incentivo à mobilidade, exercício físico, de adoção de hábitos alimentares mais saudáveis, entre outras, neste consórcio específico pretende-se atingir pessoas que sofram de ansiedade, isolamento social e sintomas primários de depressão e que façam parte de grupos como estudantes do ensino superior, seniores, indivíduos referenciados pelas referidas Unidades de Saúde Familiares, como por exemplo desempregados, migrantes e reformados.

Raquel Barata explica como surgiu o consórcio “MUSEUS E BEM-ESTAR | MUSEUMS AND WELLBEING”, e a grande mais-valia que é a experiência de cada um dos membros. «A ideia surge do intercâmbio estabelecido com os médicos e assistentes sociais que iniciaram uma rede de prescrição social em Lisboa, na USF da Baixa e USF Almirante Reis e com o contacto com a Universidade de Edimburgo. O Museu de São Roque e a Santa Casa da Misericórdia associaram-se ao projeto dada a sua experiência no trabalho com os seniores dos centros de dia, no combate ao isolamento social e dada a proximidade ao MUHNAC que possibilita a articulação das intervenções de prescrição social. A Universidade Nova juntou-se dada a sua experiência de prescrição social de estudantes e a Universidade de Lisboa incluiu também os Gabinetes de Apoio ao Estudante neste projeto, assim como investigadores que irão desenvolver a avaliação das intervenções e o estudo nesta temática».

A apresentação pública do projeto decorre dia 18 de fevereiro no canal Youtube do Museu, entre as 11h00 e as 13h00 (ver programa), mas as primeiras intervenções já decorreram em novembro de 2021 com utentes das USFs e prevê-se que tenham início, ainda no primeiro semestre de 2022, atividades com estudantes universitários e seniores dos Centros de Dia da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

No entanto, este é todo um complexo processo em curso que decorre entre os provedores de saúde, as Universidades e os Museus (MUHNAC, Museu de São Roque e Jardins Botânicos), como explica Raquel Barata. Primeiro «as atividades são detalhadas pelos curadores no trabalho com as coleções no Museu e nos Jardins Botânicos e são enviadas aos médicos e psicólogos de cada entidade provedora de saúde (USFs, Santa Casa ou Gabinetes de Apoio ao Estudante nas escolas de ensino superior) para que possam indicar as tarefas mais apropriadas a cada perfil, como por exemplo, monda ou envasamentos no Jardim Botânico, limpeza de exemplares nas coleções do Museu, etc.», explica Raquel Barata.

Na prática pretende-se que perante uma listagem de atividades voluntárias previamente definidas pelos curadores das coleções científicas e devidamente aprovadas, os provedores de saúde possam adaptar a cada indivíduo o tipo de tarefa a desempenhar. Estes terão então um tutor no Museu e Jardins que os acompanhará e dará feedback aos médicos, assistentes sociais e psicólogos sobre os progressos ao nível da saúde e bem-estar.

Este projeto prevê para um futuro próximo o envolvimento da comunidade académica na investigação sobre esta temática e uma ação de formação a oferecer no MUHNAC ainda no primeiro semestre deste ano sobre prescrição social em Museus e Jardins Botânicos.

Texto por Lúcia Vinheiras Alves