As mais remotas perceções da geodiversidade, pelo Professor Galopim de Carvalho

22 de abril, Dia Mundial da Terra

Professor Galopim de Carvalho, na Jazida com pegadas de dinossáurios da Pedreira do Galinha, em 1994

A ciência que estuda a geodiversidade e que dá pelo nome de geologia só se afirmou no século XVIII, em especial por obra do escocês James Hutton (1726-1797), considerado como o pai deste domínio do conhecimento.

Nos tempos da História que o antecederam, aspetos pontuais deste domínio, ainda insuficientemente estruturado, foram objeto do pensamento dos filósofos da Antiguidade e, depois, de especulações e experimentações por parte de alquimistas e naturalistas da Idade Média e do Renascimento. Mas a perceção desta realidade física que nos rodeia remonta a alguns milhões de anos, ao tempo dos nossos mais remotos antepassados pré-históricos.

Numa longa caminhada, tão velha quanto a dos primeiros hominídeos, a geodiversidade foi sendo descoberta pelos seus representantes, que aprenderam a tirar dela os proveitos que lhes permitiram sair da sua condição mais primitiva e progredir até à que nos rodeia no presente.

Alastrando a todas as latitudes, longitudes e altitudes, estas criaturas foram observando a superfície do planeta e assimilando, ainda que de forma muito embrionária, conhecimentos em domínios que hoje abordamos na ciência que surgiu muitos milénios mais tarde. Ao longo da sua evolução física e psíquica, experimentou o que pôde experimentar, deduziu o que soube deduzir, inferiu o que conseguiu inferir, transmitindo aos descendentes o saber que neste e noutros domínios foi acumulando, servindo-se para tal das linguagens de que dispunha, de início, o gesto e, mais tarde e progressivamente, a fala. Com o passar do tempo adquiriu capacidade de estabelecer relações de causa-efeito entre as rochas e os minerais que foi encontrando e os mecanismos que lhes foi dado observar no mundo que foi o seu.

Enfrentou climas tórridos e outros imensamente frios, subiu e desceu montanhas, num acumular de experiências que lhe permitiu viver e sobreviver. Presenciou a chuva e os seus efeitos como poderoso agente de erosão, desde a simples e inofensiva escorrência, às grandes enxurradas e aluimentos de terras. Assistiu a catastróficas cheias próprias das planícies aluviais dos grandes rios e suportou secas intermináveis. Andou sobre as dunas e relacionou-as com o vento. Viu a lava incandescente a brotar dos vulcões. Viu-a correr como uma torrente de fogo e imobilizar-se, depois, por arrefecimento, transformada em rocha. Sentiu a terra tremer debaixo dos pés e ouviu o som cavo e assustador dos sismos. Procurou cavernas. Conheceu o sílex e a sua característica fratura conchoidal e aprendeu a tirar partido desses conhecimentos para produzir utensílios e armas. Descobriu a argila e soube aproveitar a sua plasticidade quando misturada com a água e o seu endurecimento pelo fogo nas peças cerâmicas que criou. Conheceu os pigmentos minerais com que deu aso à sua criatividade artística, pintando-se e pintando o interior de cavernas onde se protegeu das intempéries e de alguns dos animais com que partilhou o espaço. Descobriu o betume (asfalto) e usou-o como combustível e, talvez, como fonte de iluminação.

Prospetou o ouro, a prata, os minerais de cobre, os de estanho e os de ferro, milhares de anos antes de a ciência lhes ter prestado atenção e lhes ter dado nomes. Aprendeu a explorá-los e ensaiou as metalurgias, primeiro, a do bronze, há mais de 5000 anos e, cerca de mil anos depois, a do ferro. Fez tudo isto e muito mais antes dos sumérios, chineses e egípcios terem iniciado a arte de escrever.

Por António Galopim de Carvalho, Professor Jubilado da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e ex-Diretor do Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa.