Exposição "Cuidar e Curar" é reestruturada e conta com novos objetos

Reinaugurada a 23 de junho, a exposição “Cuidar e Curar. Medicina e os Museus da Universidade de Lisboa” integra novos objetos da coleção de Otorrinolaringologia da FMUL.

Reinauguração da exposição Cuidar e Curar com a presença de Fausto Pinto, Diretor da FMUL, de Marta Lourenço, Diretora do MUHNAC-ULisboa, de Vítor Oliveira, Professor Bibliotecário da FMUL, de Óscar Dias, Professor Regente de Clínica Universitária de Otorrinolaringologia da FMUL (da esquerda para a direita).

Ao fim de quase sete anos na sala Branca Edmée Marques do MUHNAC-ULisboa, a exposição “Cuidar e Curar. Medicina e os Museus da Universidade de Lisboa” foi agora reinaugurada, após a sua reorganização com o intuito de acolher acervo histórico da Coleção de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina, da Universidade de Lisboa (FMUL).

Esta coleção, composta por 160 objetos, foi recentemente depositada no MUHNAC-ULisboa, onde será estudada, preservada, conservada e divulgada ao público, à semelhança do que aconteceu com outras coleções, como por exemplo, a de oftalmologia, de cirurgia, de urologia, obstetrícia, entre outras, patentes na mesma exposição e depositadas ao abrigo de um protocolo estabelecido entre o MUHNAC e a FMUL.

O MUHNAC-ULisboa assume assim o papel primordial de fiel depositário destas importantes coleções da história da ciência e da medicina, como explica Óscar Dias, Professor Regente de Clínica Universitária de Otorrinolaringologia da FMUL. «Um espólio rico, devidamente catalogado e interpretado, e que sirva de elemento catalisador para o desenvolvimento, é um bem coletivo excecional para a Sociedade» e «o MUNHAC faz parte da própria Universidade. Esta é uma característica que o torna excecional pois apoia-se no próprio conhecimento e na sua massa crítica, que é verdadeiramente gigantesca». 

«O Museu acaba por ser uma ponte entre todas as áreas, pode potenciar ideias e projetos, e é sem dúvida a maior janela da Universidade para o grande público. Ao contribuir para abrir horizontes em todas as gerações torna-se num elemento vital de progresso, de consciencialização da história e das soluções encontradas pelos que nos antecederam e que nos permitem ter a qualidade de vida que temos hoje».

Dos 160 objetos agora depositados no MUHNAC, a maioria encontra-se patente na exposição e pode ser visitada pelo público. De entre os objetos, destaca-se o espelho frontal, um instrumento que teve um papel fundamental para o avanço da otorrinolaringologia.

«Trata-se de um espelho circular, ligeiramente côncavo, com um orifício central, através do qual o observador consegue observar melhor uma cavidade. Este instrumento surge no século XIX (Hoffmann,1841) e cria condições para observar o canal auditivo, a boca e a orofaringe, o nariz, o globo ocular e mais tarde a laringe e a faringe toda. No fundo, cria as condições para o desenvolvimento da otorrinolaringologia e da oftalmologia», explica o Professor Óscar Dias.

«A ideia do espelho côncavo para controlar a luz é muito antiga, já é mencionada a sua utilização por Arquimedes no cerco de Siracusa no tempo das guerras entre os gregos e os romanos (287.C.), mas foi a necessidade de observar melhor as cavidades que terá estimulado numa mente curiosa a ideia de criar a abertura no centro do espelho. Com essa aparentemente simples adaptação criaram-se condições para diagnosticar e tratar inúmeros doentes ao longo dos tempos e criar novas áreas do conhecimento».

Mas para além deste, há uma série de objetos que merece atenção especial pela sua história e desenvolvimento enquanto instrumentos, como nos conta o Professor da Faculdade de Medicina (ver caixa). Instrumentos que foram profundamente estudados por alunos da FMUL no âmbito do projeto de Preservação do Património e do Mestrado Integrado em Medicina.

«A revisão exaustiva efetuada sobre os vários tópicos ajudou imenso na interpretação e valorização do instrumental cirúrgico, da história das intervenções cirúrgicas e das técnicas de observação, da dimensão cultural, sociológica e ética da surdez, da evolução das doenças, da compreensão das formas de prevenção, do impacto do aparecimento de novas tecnologias, da integração do contexto social e económico na modificação das doenças. Todos estes trabalhos foram oportunidades de deixar escrita uma visão integrada dos principais problemas da Otorrinolaringologia e como foram enfrentados pelas várias gerações. Estes trabalhos tiveram ainda reflexos muito positivos na aproximação de várias áreas do conhecimento, não só no universo médico, como a outras dimensões, como da História, da Literatura, da Educação, da Música», explica o Professor Regente de Clínica Universitária de Otorrinolaringologia, da FMUL.

Fruto destes vários trabalhos, a exposição integra agora uma mesa multimédia para consulta livre de catálogos de história de Otorrinolaringologia, onde os objetos expostos estão identificados.

A reinauguração da exposição “Cuidar e Curar” contou com a presença de Marta Lourenço, Diretora do MUHNAC-ULisboa, de Fausto Pinto, Diretor da FMUL, de Vítor Oliveira, Professor Bibliotecário da FMUL, de Óscar Dias, Professor Regente de Clínica Universitária de Otorrinolaringologia da FMUL, assim como de vários alunos da Faculdade de Medicina e representantes da Associação de Estudantes da FMUL.

A exposição “Cuidar e Curar. Medicina e os Museus da Universidade de Lisboa” pode ser visitada de terça-feira a domingo, entre as 10h00 e as 17h00.

Por Lúcia Vinheiras Alves

 

Instrumentos em destaque pelo Professor Óscar Dias

 

 

Auriscópio de Brunton é um instrumento do final do século XIX (1865). A necessidade de ver melhor o ouvido levou à construção de um instrumento que utilizava a luz solar e com um engenhoso jogo de espelhos possibilitava ver melhor o canal auditivo e a membrana do tímpano.  Este exemplar pertenceu à Real Escola Médico Cirúrgica. A ideia de um instrumento para ver melhor o ouvido foi evoluindo e chegamos assim ao otoscópio de iluminação elétrica e ao vídeo otoscópio atual.

 

Espelho laríngeo foi utilizado pela primeira vez (1854) por um professor de canto, o espanhol Manuel Garcia. A necessidade de ver a laringe dos seus alunos gerou a ideia de utilizar um espelho dentário para tentar ver o que se passava por trás e abaixo da base da língua. Os grandes nomes da Medicina da altura aprenderam a utilizar o espelho de Garcia e assim nasceu a Laringologia baseada no diagnóstico.

 

 

Instrumento de O’Dwyer À necessidade de criar condições para salvar as crianças da morte por difteria devemos o instrumento de O’Dwyer (1885). As membranas da difteria obstruíam a via respiratória e a única alternativa era a traqueotomia, o que por sua vez era muito elevado risco. O’Dwyer era um pediatra e tentou uma solução para salvar as crianças quer da difteria como da traqueotomia e conseguiu esse objetivo introduzindo um tubo entre as cordas vocais primeiro com o dedo e depois com um instrumento que desenhou. Mais tarde, quando surge a anestesia geral, a ideia de O’Dwyer de colocação de um tubo entre as cordas vocais dá origem à entubação oro-traqueal que se utiliza atualmente por rotina.

 

 

Eletroscópio de Brunnings reflete o impacto da utilização da iluminação elétrica na medicina. Com o mesmo cabo e mudando apenas as lâminas e as cânulas passaram a ser possíveis a laringoscopia, a broncoscopia e a esofagoscopia. Este conjunto instrumental permitia enfrentar o problema dos corpos estranhos e realizar o diagnóstico das lesões das vias respiratória e digestiva. Toda esta nova capacidade surge numa época em que só existia ainda a anestesia local.