Incertae-sedis: espécies-vertigem

Da artista Mariana Barrote

Quando: 
5 de Agosto de 2022 a 28 de Agosto de 2022
Onde: 

Museu Nacional de História Natural e da Ciência

Incertae-sedis: espécies-vertigem parte da consulta das coleções do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto (MHNC-UP) e usa o desenho para especular sobre as diferentes naturezas dos seus objetos. A taxonomia é uma das estratégias para a organização dos exemplares de animais e plantas, que em incertae-sedis acaba por se tornar obsoleta, pois se reorganiza segundo as dinâmicas de outra imaginação. No centro dessa vertigem que se abre encontra-se a personagem inquiridora “Goliathus”. Aparece como agente em feitiço. Por si se baralham os seres e se propõe um espaço de incerteza, propício ao surgir do novo. Goliathus olha o mundo de fora e o que olha transforma: traços de apropriação e de descoberta.  

Incertae-sedis: espécies-vertigem tem co-autoria de Alexandre Mota. Teve apoio à criação da Fundação Calouste Gulbenkian e parceria do MHNC-UP.

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Num mundo fantástico da (des)taxinomia

 

A Exposição Incertae sedis Espécies – Vertigem da artista plástica Mariana Barrote transporta para o Laboratório de Química Analítica o imaginário criativo da artista, baseado na recolha e no estudo das coleções de Antropologia Biológica, Entomologia, e de Minerais e Rochas, do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto.

O Laboratório transformado num palco, onde tudo é possível, onde o espaço e o tempo formam um todo sensível. É essa fusão que caracteriza o trabalho de Mariana Barrote, não invalida que possam ser apreciadas separadamente, mas o seu percurso e trabalho artístico só pode ser plenamente entendido sob uma perspectiva global e imaginária. “No cronotopo artístico-literário ocorre a fusão dos indícios espaciais e temporais num todo compreensivo e concreto. Aqui o tempo condensa-se, comprime-se, torna-se artisticamente visível; o próprio espaço intensifica-se, penetra no movimento do tempo, do enredo e da história. Os índices do tempo transparecem no espaço, e o espaço reveste-se de sentido e é medido com o tempo.”[1] A manipulação e apropriação de figuras baseadas nas coleções naturalistas e a fragilidade dos materiais utilizados na execução dos desenhos e dos objectos artísticos, confere-lhes uma lógica de expansão de formas e de movimento.

Este jogo de sombras que nos remete para as sombras japonesas, onde os desenhos podem estabelecer um paralelo não formal, mas conceptual com a fragilidade metaforizada na cultura japonesa. Mesmo sendo uma exposição vertical a horizontalidade está subjacente. “O gosto pela horizontalidade não é uma característica peculiar apenas do espaço arquitetónico. Os pés dos dançarinos nas danças japonesas seguem o piso, e os dois pés nunca se erguem do chão ao mesmo tempo. O mesmo acontece com os movimentos dos atores no palco. No teatro , os atores movimentam-se na vertical e na horizontal, mas não se movimentam para cima e para baixo.”[2] A verticalidade da exposição leva-nos para o movimento que se repete e se relaciona com a coluna vertebral, citando a Mariana Barrote, “Quando visitei as colecções do museu, fiquei fascinada com os ossos, porque no museu está tudo morto e isso impressionou-me muito.” No desenho a Árvore da Vida, repete-se o movimento vertical. Aqui na exposição questionamos a origem da vida numa forma recreativa, mas consistente e consciente.

Mariana Barrote cria a personagem Goliathus, elemento que se repete por toda a exposição. Citando a artista “No centro dessa vertigem que se abre encontra-se a personagem inquiridora Goliathus. Aparece como agente em feitiço. Por si se baralham os seres e se propõe um espaço de incerteza, propício ao surgir do novo. Goliathus olha o mundo de fora e o que olha transforma: traços de apropriação e de descoberta.” É baseado no nome de um escaravelho que pertence à colecção do museu do Porto. Esta personagem aparece também no vídeo criando uma circularidade dentro do projeto. Feiticeiro que brinca com o que vê.

Outras e novas formas de vida, onde há um esbarrar com a taxinomia e a sistemática, métodos utilizados para a catalogação dos organismos vivos.  A taxinomia ordena as espécies em determinados grupos e a sistemática cria regras e leis nas quais nos baseamos para não haver sobreposição de nomes. Goliathus, personagem imaginário e feiticeiro pretende quebrar com essa tradição e faz com que em incertae-sedis se torne obsoleta, pois reorganiza-se segundo as dinâmicas de outra imaginação. O sonho e a invenção remetem-nos para os primórdios do cinema para os desenhos e filmes de Georges Méliès, onde também aí se apresentavam e encenavam outas realidades.

Mariana Barrote constrói uma narrativa paralela que joga com o que está institucionalizado e definitivo. “O início de toda sua construção é porquê? A curiosidade, o devaneio, a imaginação — eis o que formou o mundo moderno. Seguindo a inspiração, misturou ingredientes, criou combinações. Sua tragédia: ter que se alimentar com elas. Confiou em que pudesse imaginar numa vida e encontrar-se noutra, aparte. De fato essa outra continua, mas sua purificação sobre o imaginado age lentamente e um homem sozinho não encontra o pensamento tonto de um lado e a paz da vida verdadeira noutro. Não se pode pensar impunemente."[3]

A exposição Incertae-sedis: espécies-vertigem tem co-autoria de Alexandre Mota. Teve apoio à criação da Fundação Calouste Gulbenkian e parceria do Museu de História Natural e Ciências da Universidade do Porto. 

 

Sofia Marçal




[1] Mikhail Bakhtin, in:  Questões de literatura e estética: a teoria do romance, p.211.

[2] Shuichi Kato,  in: Tempo e Espaço na Cultura Japonesa, p. 191.

[3]Clarice Lispector, in: Perto do Coração Selvagem, p.25

 

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Exposição de Arte e Ciência