Tanto a tua figura

Exposição do artista plástico Ricardo Marcelino 

Quando: 
3 de Dezembro de 2021 a 16 de Janeiro de 2022
Onde: 

Sala Azul | Museu Nacional de História Natural e da Ciência 

O pintor da Vida Moderna [1]

A Exposição Tanto a tua figura de Ricardo Marcelino (1990) é composta por trabalhos sobre tela e papel. O artista vive e trabalha em Lisboa, é Licenciado e Mestre em Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.

Ricardo Marcelino concentra a ideia e a motivação do seu trabalho não na encomenda, mas nele próprio, é um trabalho de autoencomenda. O artista absorve todo o percurso criativo em si, desde pensar o tema até à concretização dos seus trabalhos. “No meio destes sentimentos flutuantes do meu coração agitado, sem sequer perceber como a estrada era perigosa, voltei pela noite dentro na companhia da lua cheia para o abrigo rústico do qual eu havia partido antes de amanhecer.”[2] O seu gesto procura constantemente na Natureza, na paisagem e na figura,  o motivo para a sua criação. Aprisionando-a na sua memória visual para posteriormente a reproduzir, prolongando assim o olhar sobre a visão numa languidez constante.

Os trabalhos aqui expostos inserem-se numa lógica representativa por vezes metafórica, mais ou menos simbólica. Jogando com a melancolia, com o desalento e com o espanto, o que nos leva para uma perspectiva da representação poética, enquanto linguagem figurada e despojada. “É um eu insaciável do não-eu que, a cada instante, o manifesta e o exprime em imagens mais vivas do que a própria vida, sempre instável e fugidia.”[3]  A exposição resulta do trabalho de investigação de Ricardo Marcelino, onde o seu olhar se cruza com a realidade quotidiana e com as colecções naturalistas do museu. Simultaneamente de meditação e de estudo da inserção da figura na paisagem natural.

A obra do Ricardo Marcelino tem um carácter compulsivo e obsessivo, onde o contraste entre a inquietude da paisagem e a serenidade da figura é evidente. A sobreposição da matéria, da tinta, do óleo é perecível e intuitiva. “O jovem pintor é como o soldado: a sua ambição está toda na glória. Ele bem sabe que não encontrará riqueza no manuseio do pincel [...]deseja ser rico? Perguntarei ao jovem pintor, abandone rapidamente a paleta e o pincel, estude química, aprenda a adivinhar as necessidades físicas dos homens de nossa época, veja que tipo de tecido eles preferem para as suas roupas, quais louças apreciam utilizar, torne-me fabricante [...] deseja manter o seu pincel? Como quiser, mas então não tenha outras ilusões senão aquelas da glória; não pense nem em honras nem em riquezas.”[4] Ricardo Marcelino morre e renasce em cada obra, é a  emoção que condiciona a sua experiencia, a sua criação. É a alma do artista, a sua exaltação.

A desordem, a imprevisibilidade e a estética destes trabalhos revelam que Ricardo Marcelino é livre de se surpreender a si próprio, as ideias são descobertas pela inspiração. Há um diálogo constante e persistente entre o que pensa e o que executa. No artista esta reflexão e estes aspectos são inseparáveis, pensamentos efémeros e transitórios, fixados na tela e no papel, partindo do visível, da observação para alcançar a intemporalidade.

“O inverno rigoroso, que transforma a água que toca na pedra,

Não deixaria crescer ali na chuva e no vento

Mais do que os pinheiros frequentemente partidos um pelo outro,

As árvores não estavam mais quietas do que os homens;

Tudo na terra está atormentado assim como nós,

À explosão, à tempestade, ao Aquiles fatal”. [5]

Sofia Marçal




[1] Título de um livro de Charles Baudelaire

[2] Francesco Petrarca, in: Subida ao monte ventoso, p.59.

[3] Charles Baudelaire, in: O Pintor da Vida moderna, p.20

[4] Stendhal, in: Histoire de la peinture en Italie, p.166.

[5] Victor Hugo, in: La legende des siécles, p.151.

 

Inauguração: 2 dezembro, das 17h00 às 20h00 

Lançamento do catálogo da exposição: 13 de janeiro, das 17h00 às 20h00

Com a colaboração 

Exposição de Arte e Ciência