Regnum Animale
Data
Local
Exposição da artista Graça Moncada
A exposição vem na sequência da uma residência artística no museu. Nesta exposição os animais conservados do MUHNAC adquirem uma visibilidade diferente, como se se tivessem escapado à sua condição estática para irem ao encontro do visitante do museu. O animal espreita e mostra-se, ganhando uma nova vida.
Curadoria: Sofia Marçal
Inauguração: 26 de março, 18h00
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A contemplação como ato de criação
A exposição Regnum Animale da artista visual Graça Moncada vem na sequência da residência artística que desenvolveu no museu durante cerca de um ano, no âmbito do PANC (Programa de Arte, Natureza e Ciência). Onde teve a oportunidade de contatar com as coleções científicas do museu, assim como trabalhar com os respetivos curadores das coleções de História Natural, nomeadamente com o Jorge Prudêncio e com os taxidermistas Ana Campos e Pedro Andrade.
A exposição é composta por desenhos e pinturas, onde a minúcia, o detalhe e a persistência da artista dominam estes trabalhos artísticos numa harmonia desafiadora e vinculativa com o real. Mas também irreverente, onde se foi construindo uma narrativa silenciosa e contemporânea que possibilita a criação de várias leituras interpretativas, onde pequenas histórias se escondem. “No entanto, ao lhe pedir que me contasse como a história acabava, não obtive nenhuma resposta que me contentasse; porque — ele dizia — a história não tinha importância nenhuma, a única coisa que contava eram aqueles poucos instantes.”[1] Graça Moncada com as suas pinceladas subtis possibilita a volumetria dos seus animais, onde se evidência a tangibilidade da pintura.
Graça Moncada começou por desenhar à vista alguns animais num ambiente íntimo e escuro, na sala onde se encontrava a coleção de mamíferos pertencente à Coleção em depósito de Valentim dos Santos. De seguida passou-os para desenho a lápis sobre cartolina preta numa analogia com o lugar, numa aproximação à intimidade construindo com o seu gesto preciso num ato de criação artística nos limites da observação. “Somente a partir do estudo sistemático e criterioso, portanto, é que se dispõe realmente a criar, sentindo-se apto a alçar voo com as asas já então confiáveis do estilo do ‘fluxo da consciência’.”[2] A sistematização, a consistência e o método evidenciam-se nos trabalhos da artista, onde a matéria a par do desenho delineiam-se numa relação conceptual da intemporalidade, de prolongamento do seu pensamento artístico materializado na exposição.
Nesta linha de pensamento pragmático, estão colocados na hotte, dois trabalhos realizados nesta mesma sala, mas desenhados sobre papel branco uma vez que são animais de habitats frios. Numa relação da artista com o animal num ato de captura, onde o animal se mostra e a Graça Moncada o materializa, o representa, o interpreta, para posteriormente o dar a conhecer. Este exercício de acolhimento e de proximidade física, projeta-se mentalmente numa observação que se expande para o ato da criação.
Com o desenho do lobo, realizado a tinta-a-china, pastel seco e acrílico a artista pretende fazer a transição dos desenhos de fundo negro para a série de desenhos laranja e vermelho. O lobo retratado no desenho, encontra-se exposto na exposição Variações Naturais, uma viagem pelas paisagens de Portugal. Citando a artista, “é como se o lobo tivesse sido petrificado ao olhar a luz da lua, como se tivesse ficado paralisado no tempo.” Num sentido poético e numa apropriação simbólica do tempo, como se este não existisse, assumindo-se como um tempo de expetativa. “O trabalho e o seu produto, o artefacto humano, emprestam certa permanência e durabilidade à futilidade da vida mortal e ao caráter efêmero do tempo humano.”[3]A dimensão artística do tempo não se dissipa, é imortal e recria-se numa dimensão universal materializada neste conjunto de trabalhos artísticos.
Na série vermelha temos o animal predador representado num ambiente encarnado e o animal que está em risco de ser caçado desenhado a grafite, só se deslumbra a sua sombra, invocando-se a subtileza da presença/ausência numa dualidade poética que advém também da objetividade na escolha dos materiais, da textura e da sua cromática.
Nas telas pintadas a acrílico, os animais estão representados em poses paradas, numa paleta de cores muito uniforme. Onde se deslumbra um certo desconforto destes animais, até as suas sombras os intimidam, numa analogia com a realidade complexa e sensível de sobrevivência de algumas espécies animais.
Todos estes trabalhos artísticos foram executados no museu, durante a sua residência artística. Graça Moncada numa atitude de curiosidade, de entrega, de dedicação ao seu fazer artístico, engrandece a exposição num exercício de humildade, de respeito e de admiração pelos animais.
Completam a exposição cinco exemplares pertencentes às coleções naturalistas do museu, a Garça Vermelha (Ardea purpurea), o Maçarico-de-bico-direito (Limosa limosa), o Abelharuco (Merops apiaster), o Lobo (Canis lupus) e a Coruja-do-Mato (Strix aluco), apresentados a par dos desenhos e das pinturas, numa abordagem de harmonia e de inclusão. A artista traz o espólio do museu de história natural para a sua exposição Regnum Animale numa atitude permeável às interpretações de ligação entre arte e ciência, consciências que se cruzam e que se opõem, expandido o campo da arte, onde se interliga o sentido de mutabilidade, num questionamento limítrofe destes dois campos de conhecimento.
Sofia Marçal
[1] Natalia Ginzburb, in: As pequenas virtudes, p.42.
[2] James Joyce, in: Retrato do artista quando jovem, p.12.
[3] Hannah Arendt, in: A condição humana, p.16.