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Exposição de Arte e Ciência

Data

23 Fevereiro - 24 Março 2024

Local

Laboratório de Química Analítica | Museu

Exposição do artista plástico Marcelo Moscheta 

O silêncio dos vestígios e da memória, no ruído da paisagem

A exposição Do labirinto ósseo do Homem ao Eixo do Rochedo de Marcelo Moscheta que se apresenta no Laboratório de Química Analítica, foi pensada especificamente para este espaço e tem como ponto de partida as caminhadas, a observação, a recolha de materiais e gravações sonoras que o artista fez em Sintra. Num percurso pedestre realizado desde o Labirinto da Quinta da Regaleira até ao Rochedo do Cabo da Roca. Caminhadas que continuaram pelo museu com a observação das várias coleções científicas e assim, Marcelo Moscheta construiu o seu projeto artístico, a sua ideia de exposição.

Os trabalhos apresentados são em ardósia da zona de Valongo, desenhados a bastão de grafiti, realizados em diversos tamanhos. Algumas dessas ardósias ainda têm vestígios de restos de seres vivos fossilizados. Como se fossem vestígios de memórias, “a viragem em direção à memória é subliminarmente estimulada pelo desejo de nos ancorarmos num mundo caracterizado pela cada vez maior instabilidade do tempo e pela fracturação do espaço vivido”[1] Estes desenhos, pequenos fragmentos do passado presente, da memória ausente.

As ardósias quebradas pelo artista remetem-nos para o relevo, para a paisagem e acarretam a memória do conhecimento escrito. Instaladas sobre cavaletes de madeira, construídos para este propósito, elas projetam-nos para os quadros escolares, e para o conforto da madeira como material, o afeto ligado à frieza do branco do laboratório e do preto da ardósia.

Em contraponto aos desenhos em ardósia e à ideia de um simulacro de um rochedo que vai ocupando a sala, encontra-se dentro da hotte, o modelo Labirinto ósseo humano, pertencente às coleções científicas do museu.[2] Labirinto ósseo, é a parede externa óssea e rígida da orelha interna que é envolvida pelo rochedo.[3] Paralelismo com o Labirinto da Quinta da Regaleira e do rochedo do Cabo da Roca.

Citando Marcelo Moscheta, “o enigma destes trabalhos é a superfície, a superfície é o que determina o valor da imagem, pensando na ideia de superfície que parte de uma ideia topográfica de superfície e que sai do labirinto ao encontro do rochedo. Os correspondentes topográficos dos elementos anatómicos”. Entre um passeio bucólico e um discurso contemporâneo de uma autonomia associada à sua prática artística, numa certa abstração do real, Marcelo Moscheta legitima o seu trabalho.   

A ideia da imagem plasmada e da pele ligada à imagem, a imagem que cobre a pele, mas também nasce da pele. “Lembremos que a pele é um meio de comunicação por excelência, verdadeira interface dentro/fora, membrana de trânsito e trocas com o que costumamos chamar de ‘meio ambiente’. Não se trata, portanto, de um mero invólucro ou embalagem.”[4] As camadas, as superfícies dos desenhos, as imagens, a pele, são elementos presentes na exposição.

Continuando a citar o artista, “o ciclo de deslocamentos é refeito dentro da sala de exposição, num traslado cíclico entre o dentro e fora, o familiar e o estranho, o corpo e o espaço.” A exposição revela uma pesquisa que ocasiona outras possibilidades de investigação. É precisamente na materialização das coisas que o pensamento flui e que outros caminhos de pesquisa são encontrados.

A intemporalidade e a efemeridade da exposição são transportadas para uma dimensão objetiva de estudo, onde o conhecimento é para ser partilhado por todos, artistas, visitantes e investigadores. “A arte, as preocupações intelectuais, as ciências da natureza, inúmeras formas de erudição, florescem muito perto, no tempo e no espaço.”[5] A apropriação metodológica, o ponto de intersecção e a própria transformação, são o cerne, a criação e construção destes trabalhos artísticos.

Complementando a exposição temos uma peça de som, uma viagem sonora que reflete o ambiente percorrido, os passos de Marcelo Moscheta, o som do labirinto, o ruído do tropeçar nas pedras, a chuva a cair, o mar, o burburinho das pessoas. São sons que nos ajudam a experienciar esta viagem circunscrita num pensamento direcionado para a paisagem e para a problemática da sua representação como  nos diz Marcelo Moscheta, “a paisagem pode ser encontrada em descrições da anatomia humana - criando o que chamo de paisagens internas, pode ser revelada e imaginada através de elementos coletados do universo natural bem como ser atravessada e experimentada nas impressões de um corpo em trânsito, através de relatos iconográficos, literários e sonoros.” A cativação da paisagem, em pequenos registos a grafiti e sonoros.

Esta exposição pensa na ligação do trabalho artístico com o acervo de ciência do museu, na sua autenticidade como registo artístico e de estudo. “A autenticidade de uma coisa é a suma de tudo o que desde a origem nela é transmissível, desde a sua duração material ao seu testemunho histórico.”[6] Os experimentalismos na abordagem do processo da realização das exposições de arte relacionam-se com o experimentalismo da ciência e na exposição como forma de investigação.

 

Sofia Marçal

 

[1] Andreas Huyssen in: Políticas da memória do nosso tempo. p. 16.

[2] Proveniência da Escola Secundária Passos Manuel, Nº de inventário MUHNAC-UL-DEP0586.

[3] Parte mais dura e forte do osso temporal onde se aloja o ouvido.

[4] Maria Cristina Franco Ferraz, in: Homo deletabilis – corpo, percepção, esquecimento: do século XIX ao XXI.

[5] Thomas de Koninck, in:  A Nova Ignorância e o Problema da Cultura, p. 17.

[6]Walter Benjamin, in:  A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica, p.79